Homofobia Basta!

A guerra declarada contra o menino afeminado ( Muito Bom! )

Posted on: 9 de junho de 2011

Um super texto que eu recomento a todos lerem! É sobre o complexo de édipo que é super mal explicado por psicólogos, psicanalistas, teólogos, pastores, psiquiatras cristãos que atribuem a mãe super presente e o pai ausente um filho homossexual! Um texto que traz a filosofia a nossas mentes, não exatamente o entendimento, mas a sensibilidade!

 

O texto abaixo foi apresentado no ST coordenado por Larissa Pelúcio e Berenice Bento no Seminário Internacional Fazendo Gênero 2010.

Giancarlo Cornejo, sociólogo peruano, permitiu que publicássemos no Ponto Q sua reflexão-homenagem a Eve Kosofsky Sedgwick, criadora da Teoria Queer que morreu em abril de 2009.

A tradução é de Larissa Pelúcio.

A guerra declarada contra o menino afeminado
Giancarlo Cornejo

Na escola havia una psicóloga que me torturava. Ela nos aplicava exames que eu não entendia (e ainda não entendo o sentido): desenhávamos pessoas; a nossa família; fazíamos listas de nossos defeitos e virtudes. Ela sempre se queixava com meus pais. Me lembro que uma vez  quando ela chamou a mim e aos meus pais. Vi claramente meu nome em seu caderno de anotações, e no verso dele um X em uma opção que dizia: “problemas de identidade sexual”. Eu não estava presente quando ela conversou com meus pais, mas o que ela disse a eles, e o que eu mais ou menos já intuía, os chateou muito.

Parte desta minha narrativa escrevi inspirado pelo belo ensaio de Eve Sedgwick “How to bring your kids up gay” (1993 [2007]). Nesse ensaio, Sedgwick propõe que a figura do menino afeminado concentra com particular virulência a patologização da homossexualidade. De fato a psicóloga que mencionei declarou que eu tinha um transtorno de identidade de gênero. Este tipo de teorias de gênero foram propostas inicialmente por psicólogos como Richard C. Friedman, para quem “o homossexual saudável é aquele que já é um adulto e (b) age masculinamente” (Sedgwick 1993: 156, tradução minha). Sedgwick, além disso, se lembra que:

O movimento gay nunca foi a fundo para atender os assuntos relativos aos meninos afeminados. Há uma razão desonrosa para essa posição marginal ou estigmatizada a qual, inclusive, os homens gays adultos que são afeminados têm sido relegados no movimento social. Uma razão mais compreensível que a “afeminofobia”  é a necessidade conceitual do movimento gay de interromper uma longa tradição de ver o gênero e a sexualidade como categorias contínuas e coladas – uma tradição de assumir que qualquer pessoa, homem ou mulher, que deseja um homem deve por definição ser feminina, e que qualquer pessoa, homem ou mulher, que deseje uma mulher deve, pela mesma razão, ser masculina. Que uma mulher, como uma mulher, possa desejar a outra; que um homem, como um homem, possa desejar outro: a necessidade indispensável de fazer estas poderosas e subversivas afirmações pareceu, talvez, requerer que se diminuísse a ênfase relativa dos vínculos entre os gays adultos e aqueles meninos em desacordo com o gênero (normativo)… Existe o perigo, no entanto, que este avanço possa deixar o menino afeminado mais uma vez na posição do abjeto inquietante – desta vez o abjeto inquietante do próprio pensamento gay… o eclipse do menino afeminado no discurso gay adulto representaria mais que um vazio teórico prejudicial; representaria um nó de ódio homofóbico, ginecofóbico e pedofóbico internalizado e aniquilante e um elemento central para a uma análise gay afirmativa. O menino afeminado viria a funcionar como o segredo das vozes desautorizadoras de muitos homens gays adultos politizados” (1993: 157-158, tradução minha)

O menino afeminado é um segredo nas vozes e pensamento gay, e isso, pelos motivos apontados por Sedgwick, talvez se deva a um terror à indeterminação de gênero. Finalmente dissociar a homossexualidade da (menos respeitável) transgeneridade provavelmente tem sido uma das formas pela qual a homossexualidade tem aparecido como menos ameaçadora, e foi certamente, uma das formas pelas quais ela foi retirada da lista de patologias do “Manual Diagnóstico e Estatístico dosTranstornos Mentais” (DSM-III). Basta recordar que o DSM-IV, publicado em 1980, foi o primeiro a incluir uma nova entrada: “o transtorno de identidade de gênero na infância”. Não obstante, ou talvez por isso mesmo, minha intenção seja resgatar estas conexões e vínculos entre a transgeneridade e a homossexualidade. Vale ressaltar que estes limites ou fronteiras tem sido amplamente problematizados no caso das lésbicas masculinizadas (butch) e de transgêneros masculinos, como os trabalhos de Judith Halberstam (1998 e 2005) mostram. No entanto, no caso das feminilidades masculinas estas não parecem ser disputadas por gays (Bryant 2008, Valentine 2007). No que escrevo a seguir só poderei dar pistas de como a patologização da figura do menino afeminado cria um tropo[1] discursivo que torna impossível desassociar a transgeneridade da homosexualidade (masculina).

Quase todos meus professores me adoravam, mas me lembro que os que lecionavam educação física eram particularmente hostis a mim. Um destes professores falou com meu pai, porque estava preocupado comigo, e disse a ele (a meu pai) que eu era muito afeminado, e que todos meus colegas zombavam de mim. Meu pai, ao chegar em casa, me repreendeu, e não duvidou em me culpa pela hostilização sistemática pela qual eu passava no colégio. Quando este professor chamou meu pai para falar sobre o meu afeminamento, tornou-se inevitável e óbvia a patologização do meu corpo, como das minhas performances de gênero. O que não era tão óbvio é que, naquele momento, este jovem e atlético professor estava reconhecendo a sua própria impotência para modificar meu afeminamento, sua impotência para me fazer o homem que se supunha eu deveria ser, e sua impotência para marcar claramente os limites entre ele e eu. Me lembro que este não era um professor particularmente hostil a mim. De fato, sempre me convidava para jogar futebol, ou para correr com ele e seu grupo, para fazer longas caminhadas, para fazer abdominais. Na verdade, era bem atencioso comigo. No entanto, eu recusava todos aqueles convites, eu não me deixava impressionar por todos os seus esforços, e certamente eu não lhe dava muita atenção.

Como Sedgwick afirma, e meu pai nunca pode sequer considerar: “Para um menino afeminado protogay identificar-se com o “masculino” pode implicar em seu próprio apagamento”. (1993: 161, tradução minha). O que a cultura me demandava era que me desvanecesse.

Halberstam cita uma potente pergunta retirada da obra de Gertrude Stein intitulada Autobiografia de todo o mundo (de 1937): “De que te serve ser um menino se vais crescer para ser um homem?” (2008:23) De que me servia ser um menino se minha infância era pensada como uma transição a um espaço e a um nome que me parecia inabitável? Por que este menino não podia ter outros futuros?

Por muitos meses sentia demasiada angustia, tinha insônia, me doía a cabeça e o copo, chorava antes de ir dormir, me encontrava querendo dizer coisas que não sabia o que eram exatamente, mas que tinha de dizê-las. Era Natal de 1996, e eu tinha onze anos, e estava só com minha mãe e meu irmão menor. E comecei a chorar, a chorar, a chorar com gemidos muito fortes. Então eu disse para minha mãe que tinha algo para dizer a ela, e o que balbuciei foi: “Mãe, acho que eu tenho atração por homens”. Minha mãe também começou a chorar, porque ela entendeu o que eu quis dizer. Logo, ela nos levou ao cinema para ver uma estúpida comédia de Arnold Schwarzenegger, um suposto símbolo de masculinidade heterossexual branca. Mas será que por acaso minha mãe suspeitava que ele também podia ser um ícone homoerótico?

Se esse menino (que eu fui) viveu meses e anos de dor, angustia, pânico (homossexual) foi porque a díade segredo/revelação é constitutiva do que chamamos hoje homossexualidade (Sedgwick 1998). Este segredo em questão me ameaçava com meu próprio apagamento, mas não apenas com a materialidade que eu havia sido, mas com um apagamento que aniquilava qualquer possibilidade de futuro, e com uma  materialidade que fazia com que o amor  (de qualquer tipo) fosse impossível para mim.

Não posso negar que compartilhar o segredo me causou algum tipo de alívio. Provavelmente se não o houvesse feito naquele momento teria integrado a lista de adolescentes gays que se suicidam. Mas, em que consistia o alívio? Este cenário não questiona (necessariamente) a privatização da homossexualidade nem sua paródica espectacularização como segredo. Estou mais inclinado a pensar, seguindo Mario Pecheny (2002 [2005]), que cita o trabalho de Andras Zempleni, que não é a revelação de uma verdade interna o que mais alivia, mas, ao compartilhar um segredo (e talvez este em particular) se compartilha também a angustia e a dor que encarna a demanda de ocultar-lo/exibi-lo.

Esta pode ser vista como a cena em que saio do armário, mas me recuso a chamá-la e pensá-la assim. Nenhum armário foi destruído, nem os monstros que o habitavam foram domados e aniquilados. O pedido ou súplica que fiz à minha mãe não foi que me ajudasse a sair do armário, mas que o fizesse mais habitável para mim. Eu não sai do armário, na verdade, ela entrou nele.

Neste ponto se faz mais que necessária a seguinte pergunta: Por que uma guerra é declarada contra uma criança? Há uma potente citação de Sedgwick que pode nos dar algumas pistas neste sentido:

A capacidade do corpo de um menino de representar, entre outras coisas, os medos, fúrias, apetites, e perdas das pessoas ao redor… é aterrorizante, quem sabe, em primeiro lugar para elas, mas com um terror que o menino já aprendeu com grande facilidade e, de todos modos, com muita ajuda. (1993 p. 199, tradução minha).

 

Toda esta dor, toda a angustia que senti nessa época da minha vida pode também ser pensada como melancolia. E aqui eu gostaria de fazer uma contribuição à teoria da melancolia de gênero de Butler (2001). Uma diferença entre a melancolia heterossexual e a homossexual, é que como eu na minha infância, e a maioria de sujeitos não heterossexuais que conheço temos chorado (ou choramos) por não sermos heterossexuais. Alguém poderia argumentar que não é que choremos ou tenhamos chorado por não sermos heterossexuais (e por não podermos amar e desejar sexualmente a mulheres no caso de “ser” homens), mas que choramos por não ter os privilégios que a heterossexualidade implica. Mas estas duas posições são (tão) diferentes assim uma de outra?

Aqueles “tratamentos psicológicos” procuravam, supostamente, fazer com que minha homossexualidade fosse impronunciável, mas faziam, na verdade, que ela proliferasse e que tudo tivesse a ver com ela. Como Butler (2004) argumenta, a homossexualidade em certos contextos pode constituir-se como uma palavra contagiosa.

De fato em nenhuma parte deste ensaio seria mais pertinente fazer referência a seguinte (e  muito citada) passagem de Michel Foucault:

A sodomia… era um tipo de ato interdito e o autor não era mais que seu sujeito jurídico. O homossexual do século XIX torna-se um personagem: um passado, uma história e uma infância, um caráter, uma forma de vida; assim mesmo uma morfologia, com uma anatomia indiscreta e, quem sabe, uma misteriosa fisiologia. Nada daquilo que ele é escapa a sua sexualidade. Ela está presente em todo seu ser: subjacente em todas suas condutas, posto que constituí seu principio insidioso e indefinidamente ativo; inscrita sem pudor em seu rosto e seu corpo porque consiste em um segredo que sempre se trai… A homossexualidade apareceu como uma das figuras da sexualidade quando foi rebaixada da prática da sodomia a uma sorte de androginia interior, de hermafroditismo da alma. O sodomita era um reincidente, o homossexual é, agora, uma espécie. (1977[2007]: 56-57).

As inumeráveis psicólogas a quais fui levado por meus pais esperavam de mim uma confissão, a confissão de minha verdade interior, uma verdade que era eminentemente sexual. Mas esta “verdade interna” não era tão minha. Nos termos de Foucault: “aquele que escuta não será só o dono do perdão, o juíz que condena ou absolve; será o dono da verdade”. (1977[2007]: 84). Esta era a “verdade” de uma cultura heteronormativa, não a minha. E como Halperin (2000) argumenta, a homofobia é uma pretensão de conhecimento. Isso faria visível que a homofobia tem um fundamento essencialmente prazeroso também, um prazer novo da modernidade sobre o que Foucault comenta:

Frequentemente se diz que temos sido capazes de imaginar prazeres novos.  Ao menos inventamos um prazer diferente: o prazer na verdade do prazer, prazer em saber-la, em expor-la, em descobri-la, em fascinar-la ao vê-la, ao dizê-la, ao cativar e capturar os outros com ela, ao confiná-la secretamente, ao desmascará-la com astucia; prazer específico no discurso verdadeiro sobre o prazer”. (1977[2007]: 89).

Eu não fui o único patologizado por estes professores, psicólogas e psiquiatras, o foram também meus pais, e especialmente minha mãe. Figuras como as do “pai ausente” ou “mãe super protetora” não tardaram a aparecer como explicações de (pois teria que ser explicado) meu afeminamento. Esther Newton cita a obra de Robert Stoller para quem a figura do menino afeminado é produto da grande proximidade e presença da mãe e pouca do pai. Assim, “a verdadeira vilã é a mãe que se ‘gratifica’ muito com seu filho” (Newton 2000: 191, tradução minha). De fato, quem me acompanhava às sessões com diferentes psicólogas era minha mãe. A ela se dirigiam, e sobre ela recaiam as atribuições de culpa e responsabilidade. E de que a culpavam realmente? Talvez por atribuir a ela aquele que é considerado o pior dos crimes: matar a seu próprio filho. Nas palavras de Edelman “[Se] representa a homossexualidade masculina através da figura de uma mãe que mata seu filho, e quem, portanto participa na destruição de continuidade familiar (patriarcal)”. (1994: 167, tradução minha).

Como a homossexualidade de uma criança se transfigura em seu assassinato? Creio que Stockton acerta ao postular que “a frase “menino gay” é uma lápide para marcar o lugar e o momento em que a vida heterossexual de alguém morre” (2009: 7. Tradução minha). Em outras palavras, o berço de um menino mariquinha é a lápide de um menino heterossexual.

A categoria “mulher” é reiterada uma e outra vez nestas intervenções disciplinarias sobre meu corpo de uma maneira heteronormativa e misógina, que já Guy Hocquenghem sublinhou: “‘A mulher’, que por outro lado não tem como tal nenhum lugar na sociedade, designada como o único objeto sexual social, é também a falta atribuída à relação homossexual”. (2009: 54)

Minha mãe era assim patologizada por seu generoso afeto, que por estes “profissionais da saúde” será chamado super proteção e excessiva arogância, e que geraria (em mim) um quadro de neuroses que estaria associado a um ódio em relação às mulheres, que seria no fundo uma projeção de um ódio fecundo em relação à minha mãe. Minha mãe seria essencialmente patologizada também por um outro excesso: por um excesso de masculinidade, que se expressava em sua relativa independência, em sua voz, em suas atitudes (ou na ausência delas), e em ser a principal provedora econômica da minha casa. Não era só era meu gênero aquele a ser disciplinado, o dela também o era.

Na sua míope vontade de saber, o que nenhuma destas psicólogas pôde nem por um segundo considerar, e que Sedgwick sabia, e no que eu quero acreditar, é que “estas misteriosas habilidades para [que um menino afeminado possa] sobreviver, de filiação e de resistência podem derivar de uma firme identificação com a abundancia de recursos de uma mãe” (1993: 160, tradução minha).

Fonte: http://www.ufscar.br/cis/2011/04/a-guerra-declarada-contra-o-menino-afeminado/

Se você quer entender o complexo de Édipo e sua importância no desenvolvimento da sexualidade humana leia este artigo: Fliess e Freud – A Revolução da Sexualidade Humana através da Bissexualidade  < Só clicar na frase que abre a janela! 

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Ativista dos Direitos Humanos (Principalmente LGBTs ); Teólogo;Homeopata; Psicanalista, especialista em Sexualidade Humana, Filosofia, Sociologia;Blogueiro.

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