Homofobia Basta!

Ser Cristão e Homossexual parte II

JUDAS – Novo Testamento
Decidimos estudar Judas agora, apesar de não estarmos ainda estudando o Novo Testamento porque muito do que diz este livro tem relação com a história de Sodoma e Gomorra.
A fim de facilitar nosso estudo, incluímos algumas diferentes traduções do livro de Judas. Aconselhamos que usem também o maior número possível de diferentes versões da Biblia, de maneira que possamos ter uma idéia de como as diferenças entre uma língua arcaica e uma língua moderna podem afetar o entendimento de algumas passagens em particular, e também a fim de que possamos perceber como o uso de versões de linguagem atualizada e diferentes intérpretes podem apresentar versões e visões diferentes a partir de um mesmo episódio.
Judas 7 – Versão Bíblia Eletrônica – Leandro Calçada:
7 “…assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se prostituído como aqueles anjos, e ido após outra carne, foram postas como exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno”.
Judas 7 – Versão Bíblia Apologética – BA:
7 “…como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas como exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno”.
Judas 7 – Versão Sociedade Bíblica do Brasil – SBB:
7 “Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se prostituído como aqueles, seguindo após outra carne, são postas para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição”.
Judas 7 – Versão Nova Versão Internacional – NVI:
7 “De modo semelhante a estes, Sodoma e Gomorra e as cidades em redor se entregaram a imoralidade e as relações sexuais antinaturais. Estando sob o castigo do fogo eterno, elas servem de exemplo”.
Judas 7 – Versão Reina Valera – RV:
7 “Como Sodoma e Gomorra e as cidades vizinhas, as quais da mesma maneira que aqueles, fazendo fornicações e indo atrás de vícios contra a natureza, foram postas como exemplo, sofrendo o castigo do fogo eterno”.
Judas 7 Versão Tradução Ecumênica da Bíblia – TEB:
7 “Quanto a Sodoma e a Gomorra, e às cidades circunvizinhas que, de modo semelhante, se tinham entregue à prostituição e tinham corrido atrás dos seres de outra natureza, jazem, para servir de exemplo, sob o castigo do fogo eterno”.
Judas 7 Versão Editora Ave Maria – EAM:
7 Da mesma forma que Sodoma e Gomorra e as cidades circunvizinhas, que praticaram as mesmas impurezas e se entregaram a vícios contra a natureza, jazem lá, como exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno”.
(Se você tiver outras versões, pode adicionar aqui o que ela diz e comparar)
O livro de Judas é muito curto, com um capítulo apenas. Os pesquisadores não sabem com certeza quem é o autor, mas ele se identifica como “servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago.” Esta é na verdade a única passagem em toda a Bíblia onde é apresentada uma conexão entre atividade sexual e Sodoma e Gomorra e sua condenação. No âmbito dessa conexão encontramos ainda a afirmação de que não só as cidades foram destruídas, mas seus habitantes foram aparentemente mandados para o inferno (a pena do fogo eterno). Mas qual foi o pecado deles??? Bem, de acordo com Judas, e dependendo da tradução eles se deram à fornicação, e seguindo atrás de uma “outra carne estranha” ou se deram à prostituição (imoralidade e perversão sexual), ou cometeram vícios contra a natureza…
Qual foi o pecado deles? De acordo com os ensinamentos de várias igrejas cristãs o pecado deles era a homossexualidade. Será que foi? Uma versão diz que eles estavam seguindo após outra carne . Sabe-se que homossexuais na verdade não seguem “outra carne”, mas aqueles de mesmo sexo. Então, pode se aplicar essa passagem à homossexuais? Não. Então a que ou a quem essa passagem está se referindo?
Lembre-se da importância de mantermos as Escrituras dentro de seu contexto (Regra de Ouro da Contextualização). Preste atenção nas construções gramaticais “Assim como” e “como”, com as quais começam os versículos. Estas frases indicam uma comparação entre o que aconteceu em Sodoma e Gomorra com o que havia acontecido antes. Voltemos ao versículo seis.
Judas 6 – Versão Bíblia Eletrônica – Leandro Calçada:
6 “…aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, ele os tem reservado em prisões eternas na escuridão para o juízo do grande dia”,
Judas 6 – Versão Bíblia Apologética – BA:
6 “E aos anjos que não guardaram o seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até as juízo daquele grande dia”.
Judas 6 – Versão Sociedade Bíblica do Brasil – SBB:
“e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas em algemas eternas para juízo do grande dia”.
Judas 6 – Versão Nova Versão Internacional – NVI:
6 “E, quanto aos anjos que não conservaram sua posição de autoridade mas abandonaram sua própria morada, eles os tem guardado em trevas, presos com correntes eternas para o juízo do grande dia”.
Judas 6 – Versão Reina Valera – RV:
6 “ E aos anjos que não guardaram sua dignidade, mas que abandonaram sua própria morada, os há guardado sob trevas, em prisões eternas, para o juízo do grande dia”.
Judas 6 – Versão Editora Ave Maria – EAM:
6 “Os anjos que não tinham guardado a dignidade de sua classe, mas abandonando os seus tronos, ele os guardou com laços eternos nas trevas para o julgamento do grande dia”.
(Se você tiver outras versões, pode acrescentar aqui também)
Judas está comparando o que aconteceu em Sodoma e Gomorra com o que nós chamamos de Anjos caídos. O que quer que tenham feito os anjos, foi algo similar ao que fizeram os habitantes de Sodoma e Gomorra. O que será que fizeram? Encontraremos a resposta em Gênesis seis:
Gênesis 6, 1-2,4 – Versão Bíblia Eletrônica – Leandro Calçada:
1 “Sucedeu que, quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, 2 viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. 4 Naqueles dias estavam os nefilins na terra, e também depois, quando os filhos de Deus conheceram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos. Esses nefilins eram os valentes, os homens de renome, que houve na antigüidade”.
Gênesis 6, 1-2,4 – Versão Bíblia Apologética – BA:
1 “E aconteceu que, como os homens começaram a se se multiplicar sobre a face da terra, e lhes nasceram filhas. 2 Viram os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres de todas as que escolheram. 4 Havia naqueles dias gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus entraram às filhas dos homens, e delas geraram filhos; estes eram os valentes que houve na antiguidade, os homens de fama”
Gênesis 6, 1-2,4 – Versão Sociedade Bíblica do Brasil – SBB
1 “Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas, 2 vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas; e tomaram para si mulheres, as que dentre todas mais lhes agradaram. 4 Ora, naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade”.
(Aqui você pode colocar as versões que a versão da tua Bíblia apresenta e ver como é diferente…)
Esses versículos são admitidamente muito controversos. Existem opiniões diversas entre os pesquisadores sobre o que esses versículos querem dizer exatamente. Existem discordâncias quanto a quem seriam os “filhos de Deus”. Alguns acreditam que seriam seres humanos seguidores de Deus. Se esse argumento for verdade, por que haveria o autor de diferenciar entre os filhos de Deus e as filhas do homem? Temos uma referência bíblica que nos indica que eles eram seres da corte de Deus. Jó 1,6 nos diz “E num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o Senhor, veio também Satanás entre eles”.
Então vemos que houve um tempo em que os anjos vieram à Terra e se sentiram atraídos pelas mulheres. Eles casaram-se com elas (ou simplesmente “as possuíram”, como é a versão apresentada pela controvertida Nova Versão Internacional) e tiveram filhos. Então encontramos uma palavra peculiar que é traduzida como gigante. Uma das versões que usamos nem sequer importou-se em traduzi-la, mas simplesmente tomou as letras do Hebreu e a escreveu em Português (ou o que parecia mais próximo de) Nefilim. Esta palavra é tão rara que ninguém sabe com certeza o que significa, mas tem algo a ver com ser estranho, esquisito, bizarro, grotesco, enorme, gigantesco. Apesar de que seu sentido literal não é conhecido, parte de sua raiz é Naw-fal, o que significa cair ou caído. Mas, qualquer que seja o significado, era algo que não agradava a Deus, porque resultou no dilúvio.
Então Judas está nos dizendo que alguns anjos abandonaram seu lar celestial, e o que quer que tenham feito, acabou por condená-los a serem acorrentados até o fim dos tempos. Gênesis 6,1-4 nos diz que aqueles anjos coabitaram com mulheres mortais (humanas) e tiveram filhos grotescos, gigantescos. Qual foi o pecado daqueles anjos? Terem coabitado com um ser de uma diferente ordem (de uma “carne” diferente), de diferente espécie da sua.
Então Judas diz que, o que os sodomitas fizeram, foi o mesmo que os anjos fizeram, e como estes, foram também punidos. Então qual foi a outra carne que os Sodomitas seguiram? Não foi por serem pessoas do mesmo sexo, mas por serem anjos, seres de diferente espécie.
Adicionalmente ao que foi mencionado sobre os pecados de Sodoma e Gomorra, o primeiro capítulo de Isaías indica que a razão pela qual Deus se retirou dessas cidades era porque suas mãos estavam cheias de sangue (Isaias 1,15) e semelhantemente ao que escreveu Ezequiel, eles eram injustos, não amparavam os oprimidos, os menos favorecidos, as viúvas e os órfãos. (Isaías.1,17). Jeremias também lista uma série de irresponsabilidades e as atribui a Sodoma e Gomorra.
Portanto, nós podemos perceber que existiram várias razões para que Deus destruísse as cidades: orgulho, imoralidade, falta de cuidado com os mais vulneráveis e necessitados naquela sociedade, falta de hospitalidade e uma tentativa de abuso sexual de seres de diferente espécie. Nem uma única palavra sobre homossexualidade.
Para aqueles que ainda argumentam que, o que os homens de Sodoma queriam era sexo homossexual, solicitamos que leiam Juízes 19, o que é um paralelo à história de Sodoma e Gomorra. Naquela passagem vemos que quando a concubina foi lançada à multidão, ela foi vítima de abuso sexual repetidamente até que morreu, da mesma maneira que teriam feito com o homem, se o velho tivesse permitido que ele saísse da casa. Está óbvio que a intenção era estuprar o homem e não amá-lo; devemos nos lembrar que o estupro e o abuso sexual tem sempre a ver com violência, e não com sexo consentido, e definitivamente nada a ver com amor; amor que acontece entre duas pessoas que por acaso são do mesmo sexo, nada mais.

LEVÍTICO
Levítico 18,22 – Versão Sociedade Bíblica do Brasil – SBB:
“Com homem não te deitarás, como se fosse mulher, é abominação”.
Levítico 18,22 – Versão Nova Versão Internacional – NVI:
“Não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher: é repugnante”.
Levítico 20,13 – SBB:
“Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles”.
Levítico 20,13 – NVI
“Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte”.
Levítico 20,13 – Versão Editora Ave Maria – EAM:
“Se um homem dormir com outro homem, como se fosse mulher, ambos cometeram uma coisa abominável. Serão punidos de morte e levarão a sua culpa”.
Algum tempo atrás circulava na Internet uma “carta-aberta” dirigida à locutora de um programa de rádio conhecido por ser conservadora e homofóbica. Essa locutora usava essas passagens bíblicas do livro de Levítico para apoiar a sua condenação à homossexualidade. A carta-aberta, que surgiu em resposta às acusações, utiliza-se de passagens do mesmo livro do Levítico, e estabelece questões como as que se seguem:
• “Eu sei que quando eu queimo um bezerro no altar, como um sacrifício, o odor que se desprende é cheiro suave e agradável ao Senhor. (Levítico 1,5-9) O problema são meus vizinhos. Eles dizem que o odor não é nada agradável e ameaçam chamar a Saúde Pública, que também não gosta do odor. Que devo fazer?
• Levítico 11,7-8, diz que ao tocar o cadáver de um porco me torna impuro. Poderei praticar algum esporte com bola feita de pele de porco, caso use luvas?
• Levítico 11,12 diz que comer marisco é abominação. É uma abominação maior ou menor do que a homossexualidade?
• Eu sei que não devo ter contacto com uma mulher durante o seu período menstrual (Levítico 18,19). O problema é; como saber? Sempre que pergunto a maioria das mulheres se sente ofendida.
• Levítico 19,19 me diz que não posso plantar tipos diferentes de sementes no mesmo campo, e nem usar roupas feitas de dois tipos diferentes de material. Devo concluir que serei condenado se tiver uma pequena horta no fundo do quintal com alguns vegetais e temperos, ou se usar uma camisetinha básica, de algodão e poliéster.
• A maioria das pessoas que conheço corta o cabelo de vez em quando, apesar de que isso é expressamente proibido em Levítico 19,27. Estaremos todos condenados?
• Levítico 21,16-20 declara que eu não posso me aproximar do altar de Deus se eu tiver um defeito físico. Eu uso óculos. Será que Deus faz “vista-grossa” para este pequeno detalhe?
• Levítico 25,44 declara que eu posso possuir escravos ou escravas desde que tenham sido comprados em um dos países vizinhos. Um amigo meu insiste que essa regra se aplica a Argentinos e Paraguaios mas não a Uruguaios. Poderia me orientar? Por que não me é permitido possuir escravos uruguaios?”
Parece muito claro a percepção de que é muito incoerente e até inconveniente tirar alguns versículos das Escrituras de seu contexto e tentar aplicá-los no mundo de hoje. Podemos também questionar a validade de se aplicar algumas passagens da Bíblia a um determinado grupo de pessoas e simplesmente ignorar o resto. Nos parece ridículo tentar aplicar nos dias de hoje as passagens do Levítico 1,5-9; 11,7-8; 11,12; 18,19; 19,19; 19,27; 21,16-20; 25,44, isto para mencionar apenas algumas passagens. Nesse caso o que justifica então os versículos 18,22 ou 20,13? Enquanto não podemos simplesmente “jogar fora o bebê junto com a água da banheira”, nós podemos ter os Dez Mandamentos como nosso referencial no Antigo Testamento, e os mandamentos de Jesus, na era Cristã. Jesus nos disse que a Lei Hebraica e os ensinamentos dos Profetas poderiam ser incorporados na Lei do Amor – amor a Deus, amor ao próximo, e amor-próprio (Amar a Deus sobre todas as coisas e ao teu próximo como a ti mesmo). Obviamente relações incestuosas e adúlteras, bem como molestar crianças viola a Lei do Amor, mas não o amor sincero e compartilhado entre duas pessoas que, por acaso, são do mesmo sexo. Tão simples assim.
Mas por outro lado: Será tão simples assim??? Está bem claro na Bíblia: “um homem não se deitará com outro homem como se fosse com uma mulher porque isto é uma abominação”, ou “repugnante”, conforme outra versão… Se isso não for uma condenação à homossexualidade o que é isto? E porque está lá então? Nós queremos que este estudo seja completo, sem deixar áreas nebulosas, com dúvidas. Apesar de que está claro, que não podemos pinçar umas passagens e aplicá-las nos dias de hoje, a pergunta então é: quando e a quem esta passagem foi dirigida? Se é que foi, algum dia. Será que essa passagem foi dirigida a algum grupo de homossexuais da Antiguidade? Para respondermos a tais questões, precisamos observar esses versículos dentro de seu contexto. Como veremos, sempre que ocorre uma discussão sobre o significado de determinadas passagens da Bíblia, os pesquisadores assumem diferentes abordagens para chegar a um ponto de entendimento sobre o que eles pensam que as Escrituras dizem. Tentaremos mostrar as várias percepções, de acordo com o nosso entendimento delas.
Primeiramente devemos entender que naquela época as pessoas não tinham a concepção de homossexualidade como nós temos hoje em dia. Tratava-se de uma sociedade patriarcal, gerida e administrada pelos homens, na qual as mulheres eram consideradas propriedades dos homens. Naquela época, sexo geralmente não tinha muito a ver com amor e muito menos com carinho. Sexo era meio de procriação e, de prazer para os homens, mas o sexo também era sinal de dominação. Após as batalhas, era comum que os vitoriosos praticassem sexo forçado com os derrotados, a fim de humilhá-los. Proprietários de escravos podiam normalmente praticar sexo forçado com estes como uma atitude de dominação, ou para seu prazer. Para um homem livre, deitar-se com outro homem livre da mesma tribo ou comunidade, significaria uma dominação; seria comparável a reduzi-lo ao “status” de uma mulher, isso o desonraria. Por isso era proibido, ou expressamente desaconselhável.
A segunda coisa que precisamos estar atentos é, que durante o êxodo Moisés designou à tribo de Levi a atribuição de atuar como sacerdotes para o povo de Israel (Êxodo 32,29), e o livro do Levítico foi escrito como que “instruções” ou um “código de conduta” para os sacerdotes. De acordo com o Manual Bíblico de Abbington, o livro do Levítico:
“…refere-se às atividades dos sacerdotes Levitas, que dirigiam o povo de Deus, durante os cultos e cerimônias de adoração. Os capítulos 17 até 26 faziam parte de um documento independente mais antigo chamado de Código de Santidade. Muitas das leis deste código e o restante do Levítico são da antiguidade, alguns provavelmente tirados da prática dos cananeus e adaptados nesta nova circunstância. Este conjunto de leis e ritos serviu como modelo ritualístico e sacerdotal no templo durante o pós-exílio” (p. 101).
Os primeiros três versículos do Capítulo 18 nos diz: “Falou mais o Senhor Deus a Moisés, dizendo: “Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Eu sou o Senhor vosso Deus. Não fareis segundo as obras da terra do Egito, em que habitastes, nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual vos levo, nem andareis nos seus estatutos.” Os versículos 6 até o 18 enumeram uma série de proibições acerca de relações sexuais entre membros da família, e o versículo 19 instrui os homens a não terem relações sexuais com mulheres durante o seu período menstrual, enquanto que o versículo 20 proíbe relações sexuais com a mulher do próximo.
Entretanto parece que há uma mudança de assunto a partir do versículo 21, mudando da proibição de relações sexuais com parentes próximos para a idolatria, incluindo os versículos 22 e 23, que diz o seguinte:
Levítico 18,21-23 (SBB)
21 “E da tua descendência não darás nenhum para fazer passar pelo fogo perante Moloque; e não profanarás o nome do Senhor teu Deus. Eu sou o Senhor.
22 Com homem não te deitarás, como se fosse mulher; abominação é;
23 Nem te deitará com um animal para te contaminares com ele, nem a mulher se porá perante um animal, para ajuntar-se com ele, confusão é”.
Levítico 18,21-23 (Versão Bíblia Eletrônica)
21 “Não oferecerás a Moloque nenhum dos teus filhos, fazendo-o passar pelo fogo; nem profanarás o nome de teu Deus. Eu sou o “Senhor”.
22 “Não te deitarás com varão, como se fosse mulher; é abominação”.
23 Nem te deitarás com animal algum, contaminando-te com ele; nem a mulher se porá perante um animal, para ajuntar-se com ele; é confusão“.
Quem era Moloque? Em Levítico, capítulo 20, versículos 1 a 5 lemos:
1 “Disse mais o Senhor a Moisés:
2 Também dirás aos filhos de Israel: qualquer dos filhos de Israel, ou dos estrangeiros peregrinos em Israel, que der de seus filhos a Moloque, certamente será morto; o povo da terra o apedrejará.
3 Eu porei o meu rosto contra esse homem, e o extirparei do meio do seu povo; porquanto eu de seus filhos a Moloque, assim contaminando o meu santuário e profanando o meu santo nome.
4 E, se o povo da terra de alguma maneira esconder os olhos para não ver esse homem, quando der de seus filhos a Moloque, e não matar,
5 eu porei o meu rosto contra esse homem, e contra a sua família, e o extirparei do meio do seu povo, bem como a todos os que forem após ele, prostituindo-se após Moloque”.
Quem era Moloque? Moloque era o deus amonita do fogo. Muito popular e muito colorido. Seguidores de Moloque muitas vezes pintavam o seu corpo com chamas (Note que o capítulo 19,28, instrui aos israelitas não fazerem marcas no corpo). Muitos homens costumavam fazer suas barbas desenhadas, de maneira que essas representassem chamas de fogo, (capítulo 19, 27 instrui os homens a não cortarem os cabelos ou suas barbas de maneira arredondadas).
Moloque era um deus muito exigente, e uma de suas exigências era o sacrifício de crianças. A fim de saciar e acalmar Moloque, uma criança tinha que, de tempos em tempos, ser queimada até a morte. Era comum que deuses pagãos exigissem sacrifício humano. Mas a religião hebraica era muito diferente. Deus chamou as pessoas para separá-las, para fazê-las diferentes de seus vizinhos. Enquanto os deuses pagãos exigiam sacrifícios humanos, na religião hebraica era exatamente o contrário: Deus seria sacrificado pelo homem (Isaías 53).
Lembre-se que o primeiro mandamento, e de acordo com Jesus o maior deles, diz: “Ouça ó Israel, O Senhor é o teu Deus, O Senhor é o teu único Deus!” Se este é o maior mandamento conseqüentemente o maior pecado é a idolatria. Não se deve desonrar Deus, então oferecer sacrifícios para Moloque evocaria pena de morte. Apesar de que possa parecer triste e até mesmo absurdo nos dias atuais, o pecado não era o sacrifício de crianças, mas a idolatria que era considerada o verdadeiro mal, como vemos na última linha acima, aqueles que se prostituem seguindo Moloque.
Mantendo a temática na idolatria, em respeito ao versículo 22, note a instrução no versículo 3, de não fazer como os moradores de Canaã. Lembre-se que os hebreus eram um povo nômade, enquanto os cananeus eram um povo agrícola. A religião cananéia gravitava em torno da fertilidade da terra e das pessoas. A expressão desta fertilidade inserida na religião era demonstrada através das visitas aos templos do(a/s) deus(a/s) e envolvimento em relações sexuais, geralmente do mesmo sexo, com os sacerdotes ou sacerdotisas disponíveis no templo. Então o versículo 22 instrui os hebreus a não se deitarem com um homem, como se fosse uma mulher em um sentido ritualístico, por causa de sua toebah, sua abominação, isto é, sua idolatria.
Da mesma maneira, o versículo 23 instrui as pessoas, e especialmente as mulheres, a não se envolverem em sexo com animais, porque isso era considerado uma forma de idolatria. A Enciclopédia Bíblica Padronizada Internacional considera:
“Estas proibições referentes às relações com animais podem ter sido formuladas com a finalidade de distinguir os israelitas dos cananeus, pois estes últimos eram considerados por alguns estudiosos como praticantes costumeiros de práticas ritualísticas de cópula com animais” (Vol. 1, pp. 443).
Um outro ponto a se considerar é que a SBB traduz como confusão a palavra hebraica tebel, que significa mistura, mescla, antinatural, anormal. Como vemos no estudo de Judas/Sodoma, o pecado envolve a mistura de espécies diferentes.
Na versão JFA, no Deuteronômio 23,17 encontramos o seguinte: “Não haverá prostituta dentre as filhas de Israel; nem haverá sodomitas dentre os filhos de Israel”.
Entretanto em algumas versões mais modernas (Bíblia Eletrônica, da SBB e da EAM, por exemplo) encontramos a seguinte tradução: “Não haverá dentre as filhas de Israel quem se prostitua no serviço do templo, nem dentre os filhos de Israel haverá quem o faça”. O que causou tamanha mudança? Quando a palavra sodomita (presumidamente significando homossexual, na visão de muitas igrejas), passou a significar prostituto do templo ou do culto?
Bem, para responder a essa pergunta teremos que aguardar até a próxima apostila.
Próximo estudo: Deuteronômio

DEUTERONÔMIO
Deuteronômio 23,17 (JFA):
“Não haverá prostituta dentre as filhas de Israel; nem haverá sodomita dentre os filhos de Israel”.
Deuteronômio 23,17 (Versão Bíblia Eletrônica):
“Não haverá dentre as filhas de Israel quem se prostitua no serviço do templo, nem dentre os filhos de Israel haverá quem o faça”.
Em nosso estudo sobre o livro do Levítico aprendemos que a religião do povo agrícola de Canaã gravitava em torno da fertilidade da terra e das pessoas, e que a expressão desta religiosidade traduzia-se na ida aos templos dos (as) deuses (as) e manter relações sexuais (muitas vezes relações entre pessoas do mesmo sexo) com os sacerdotes ou sacerdotisas do templo. Onde está a evidência dessa atividade? Se isto é verdade porque essa informação não é mostrada nas Escrituras? Parece que a Bíblia associa estas passagens à atividade homossexual e não à idolatria. Por que será?
Nas passagens acima, perceba que a versão JFA traduz Deuteronômio 23,17 proibindo a prostituição por parte das filhas de Israel, ou a sodomia por parte dos filhos de Israel. A tradução JFA deriva da versão King James, tradução feita nos anos 1600. Uma versão mais recente, por exemplo a da Bíblia Eletrônica que usamos, derivada da versão (NIV), a qual foi produzida no século XX e traduz o mesmo versículo proibindo a prostituição no serviço do templo. O que poderia ter causado a mudança do significado da palavra? Desde quando um sodomita (que muitas igrejas insistem em identificar como homossexual) tornou-se um prostituto ou prostituta do templo?
Devemos atentar para o fato de que apesar de serem mencionados na Bíblia, ela não relata a história dos cananeus, mas sim a história do povo hebreu e de sua relação com Deus. Em parte alguma da Bíblia podemos encontrar relatos a respeito de como viviam os cananeus nem de suas práticas. Até o século XX, o conhecimento da cultura dos cananeus estava limitado a três principais fontes:
1. Artefatos produzidos por pesquisas arqueológicas.
2. Literatura de povos que viveram na mesma época, mas pouquíssima informação está disponível, a partir desta fonte, sobre os costumes dos Cananeus.
3. Escrituras Hebraicas.
Entretanto nenhum dessas fontes pôde disponibilizar informações sobre a filosofia, práticas e crenças dos cananeus.
Em 1928 um camponês sírio estava arando a sua terra quando a seu arado partiu um pedaço de terra que resultou na descoberta de um buraco enorme. Este buraco, mais tarde revelou-se como sendo a cidade cananéia de Ugarit, que havia sido soterrada. Nesta cidade havia uma biblioteca onde conseguimos encontrar informações sobre as práticas religiosas dos cananeus que conhecemos hoje. E não somente na biblioteca, mas nos lares também encontramos muitas informações sobre a religião cananéia. Só em uma casa encontramos mais de 80 textos sobre práticas religiosas cananéias.
Qualquer estudioso da Bíblia, mesmo aqueles com um interesse limitado já ouviram falar dos “manuscritos do Mar Morto”, mas em comparação pouquíssimos ouviram falar das descobertas de Ugarit. Entretanto se você entrar na Internet e fizer uma pesquisa com base na palavra “Ugarit”, você descobrirá que existem mais de 8500 sites e artigos disponíveis. Os textos encontrados em Ugarit foram escritos em seis línguas. Apenas uma parte relativamente pequena da quantidade enorme de material encontrada foi traduzida até o presente, mas o material traduzido tem causado um grande impacto no conhecimento da Bíblia, refletindo-se em mudanças significativas nas traduções mais recentes. Muitas passagens obscuras e confusas têm sido corrigidas, em alguns casos, e em outros tem sido clarificadas.
Na época em que a versão King James (da qual deriva a JFA) foi escrita, ninguém havia ainda ouvido sobre prostituição nos templos. Por outro lado a versão NIV, escrita após a descoberta de Ugarit, mostra no versículo acima apenas uma das mudanças ocasionadas pela descoberta de Ugarit.
O Almanaque da Bíblia, edição 1980 declara:
“Nas Religiões em que a fertilidade representa um importante papel, como aquelas encontradas em Ugarit, uma grande ênfase é dada à reprodução da terra, às colheitas, e ao principal órgão reprodutor feminino, o útero. Esta ênfase explica a importância dos intercursos sexuais. A Bíblia e os textos cananeus encontrados em Ugarit usam as palavras qadesh e qedesha, que significam “o sagrado”, sendo a primeira masculina, e a segunda, feminina. Em Ugarit, estes “sagrados” eram sacerdotes e sacerdotisas homossexuais que agiam como prostitutos (as). Percebemos uma forte reação dos hebreus contra esta prostituição ritualística nas passagens do Levítico 19,29: “Não contaminarás a tua filha, fazendo-a prostituir-se…” e em Deuteronômio 23,17: “Não haverá prostituta (qedesha) dentre as filhas de Israel, nem haverá sodomita (qadesh) dentre os filhos de Israel” (pp 146).
Temos visto aqui a tradução moderna de Deuteronômio 23,18, a condenação não é a condenação da homossexualidade (“sodomia”) mas a condenação da prostituição ritualística. Agora, quando lembramos as palavras com as quais começa o capítulo 18 de Levítico: “…nem fareis segundo as obras da terra de Canaã, para a qual vos levo, nem andareis nos os seus estatutos”, e as comparamos com a explicação acima, começa a ficar mais claro que, não apenas em Deuteronômio 23,18, mas também em Levítico 18,22 e 20,13 são veementes condenações à idolatria e não à homossexualidade. Na verdade veremos que este assunto de prostituição no templo, com fins ritualísticos, aparecerá novamente, quando estudarmos as passagens que são mais conhecidas e usadas e que supostamente condenam a homossexualidade nas Escrituras.
Esta é a resposta para a questão: Onde está a evidência desta atividade? Agora, vamos responder a segunda questão: Se isto é verdade por que esta informação não é mostrada nas escrituras?. Como vimos, quando comparamos algumas versões mais antigas com as mais modernas encontramos as evidências.
Entretanto salientamos que algumas versões modernas ainda usam o termo homossexual ao invés de “prostitutas (os) do templo”. A fim de saber o que realmente os escritores originais pretendiam dizer, é extremamente importante que se use uma boa concordância bíblica e um dicionário bíblico, de maneira que se possa verificar o significado das palavras na língua original em que foram escritas. Não é necessário conhecer a língua original para se proceder a tal pesquisa, apesar de que isto significa que será necessário, na maioria das vezes, ler mais de uma versão a fim de descobrir qual a palavra originalmente usada.
Por que parece que estas passagens, da maneira que são mostradas na Bíblia, tem mais a ver com a homossexualidade do que com a idolatria? Como já vimos, várias interpretações das passagens, alem de traduções de qualidade duvidosa, nos levam a crer que essas passagens tratam de homossexualidade. Devemos lembrar que as Escrituras devem ser lidas dentro de seu contexto, e contexto não se refere apenas a manter as passagens em ordem cronológica nas Escrituras, mas devem ser examinadas levando-se em consideração a época, a cultura e o povo ao qual elas se dirigiam. Muitas vezes é necessário buscar fontes fora da Bíblia, e estar imbuídos de boa-vontade para pesquisar de maneiras a conhecer e entender o verdadeiro significado das passagens. Este é o propósito dos Estudos Bíblicos.
Se os textos encontrados em Ugarit nos mostram que as passagens referidas representam uma condenação à prostituição ritualística ao invés de condenação à homossexualidade, por que tantas igrejas ainda mantêm suas antigas visões condenatórias? Tradição é a homenagem que prestamos aos mortos! É muito difícil convencer algumas pessoas a deixar suas idéias pré-concebidas, seus pontos-de-vista e crenças que foram consolidados com o tempo. Além do mais, foram utilizados anos de pesquisa e estudos, uma vez que algumas interpretações e conclusões atingiram um certo nível de aceitação do que é, na visão deles, a verdade, a simples idéia de uma interpretação diferente pode ser encarado como um desafio à fé que possuem. Ao invés de serem capazes de adotar uma posição de compreensão e receptividade a um ponto-de-vista diferente; costumeiramente eles sentem-se ameaçados em sua fé, e não raro reagem com ira e fecham-se completamente às possibilidades de uma visão a partir de um ângulo diferente (Veja Círculo Hermenêutico, na Apostila nº 1, de nosso estudo Bíblia e Homossexualidade.) Uma nova idéia ou interpretação pode provocar dúvidas sobre o que eles já aceitaram e muitos crêem que duvidar pode ser contrário à fé.
Ainda assim consideramos que fé sem questionamentos não é fé. A fé cresce e consolida-se através do questionamento, quando estamos dispostos a desafiar nossos questionamentos, pesquisar e crer na orientação do Espírito Santo que nos “guiará em toda a verdade.” (Jo 16,13). Lembre-se que quando Tomé expressou suas dúvidas sobre a Ressurreição de Cristo, Jesus não o ridicularizou nem o condenou por suas dúvidas. Jesus abriu suas mãos e convidou a tocar nas suas feridas (cf Jo 20,29). Jesus ofereceu a prova que Tomé necessitava. Pesquisadores e estudantes da Bíblia, que querem fazê-lo seriamente, não devem temer a confrontação de seus paradigmas espirituais. Creia que o Espírito Santo esta aí para ajudá-lo. Sua fé aumentará!
Deuteronômio 23,18:
“Não trarás o salário da prostituta nem o aluguel do sodomita para a casa do Senhor teu Deus, por qualquer voto, porque uma e outra coisa são igualmente abomináveis ao Senhor teu Deus”.
NOTA: algumas versões utilizam a palavra cão, ao invés de sodomita.
O vocábulo traduzido como sodomita ou cão, de acordo com algumas versões, na linguagem original, era keleb, o qual significa latir, ganir ou uivar ou ainda atacar; ou cão; e conseqüentemente (,por eufemismo,) um praticante da prostituição masculina (Strongs #3611). A questão entretanto é: de que tipo de prostituição estamos falando? Os pesquisadores apresentam opiniões diferentes. Na série ”Estudos Bíblicos Diários” o autor do estudo do livro de Deuteronômio, David F Payne, escreve somente isto a respeito desta passagem:
“Versículos 17-18: debruça-se sobre a prática de ritos religiosos, e proíbe a prática de prostituição em nome de Javeh (a palavra traduzida como cão, conseqüentemente significa praticantes de prostituição ritualística, muito comum na religião canaanita)”.
Por outro lado, A Nova Bíblia Anotada Oxford, escreve sobre os versículos 17-18:
“Estes versículos pressupõem a inevitabilidade da prostituição, enquanto proíbem esta prática aos israelitas de maneira a preservar a santidade do templo e do povo (versículo 17). Prostituição no serviço do templo (hebraico: “qedesha”), esta tradução admite crer na existência de uma prostituição considerada “sagrada” em Israel e na região do antigo Oriente Próximo, para a qual existe pouca evidência. È mais provável que o vocábulo “qedesha” seja um eufemismo padrão para o termo prostituta/o, considerado grosseiro (versículo 18). A mesma alternação entre os mesmos termos aparece em Gn 38,15 e 21. A palavra deve ser mais bem traduzida como “separado”, algum posto ao largo, separado da sociedade (versículo 18). A fim de manter a santidade, a lei proíbe a contribuição ao Templo, com o produto da prostituição.
É interessante notar ainda que apesar de que Oxford aparentemente não leva em consideração as informações produzidas a partir dos textos de Ugarit, e pressupõe que ambos os versículos referem-se tão somente à prostituição normal é como conhecida, (ou seja aqueles não ligados à prostituição ritualística, ou a serviço do templo); ainda assim em sua própria tradução dos versículos, usa a sentença prostituição à serviço do templo. Encontramos o mesmo paralelo de palavras (prostituto/a e prostituto/a a serviço do templo) em Gn 38,15 e 21. É ainda mais interessante notar que no comentário acima a palavra “qedesha” pode ser mais bem traduzida como “separado, alguém que vive ao largo” o que comumente significa alguém separado para o serviço de Deus, para servir a Deus. Vale salientar que as duas escolas de pensamento tem interpretações diferentes do significado destes versículos, e nenhuma delas chegou a nenhuma conclusão se o mesmo estaria relacionado à homossexualidade.
O objetivo da apresentação dessas duas linhas de pensamento conflitantes não foi absolutamente de confundi-los, mas tão somente de demonstrar que até os maiores estudiosos da Bíblia, professores, e instituições de ensino nem sempre concordam entre si à respeito do exato significado das Escrituras, e atente para o fato de como o Círculo Hermenêutico pode influenciar neste processo.
Minha interpretação pessoal dessas passagens resume-se assim: israelitas não devem envolver-se em prostituição do templo, porque essas são práticas idólatras (conseqüentemente abominação).
Próximo estudo: Deuteronômio 22:5

DEUTERONÔMIO
Deuteronômio 22,5 (JFA):
“Não haverá traje de homem na mulher, e nem vestirá o homem roupa de mulher, porque, qualquer que faz isto, abominação é ao Senhor teu Deus”.
Essa é a única passagem em toda a Bíblia que trata do hábito de se usar roupas do sexo oposto (conhecido em nossa cultura como travestismo). A fim de padronização, salientamos que utilizaremos o termo “travestismo” quando nos referirmos ao uso de roupas próprias de um sexo por uma pessoa do outro sexo, independentemente de qual sexo estejamos nos referindo.
A Nova Bíblia Anotada Oxford afirma, “A proibição contra o travestismo procura sobretudo estabelecer os limites de gênero. Uma similar preocupação com limites é evidente nos versículos 10-12. Nestes versículos lemos: “Não lavrarás com junta de boi e jumento. Não te vestirás de diversos estofos de lã e linho juntamente. Franjas porás nas quatro bordas da tua manta, com que te cobrires”.
Enquanto os versículos 10 e 11 parecem observar ao extremo o conceito de não misturar “espécies diferentes”, o versículo 12 nos mostra que, na verdade, o que as Escrituras tentam nos ensinar é o conceito de separação. Os israelitas deveriam ser um povo separado, e distinto daquele povo que habitava a terra para a qual eles mudaram-se.
Devemos também lembrar,que numa cultura basicamente patriarcal, para um homem fazer qualquer coisa que pudesse ser considerada como feminina, seria uma degradação de sua masculinidade, e por extensão, degradação da masculinidade de um modo geral. A hierarquia daquela sociedade, fundamentada no gênero (sexo), tinha uma base bíblica: “E formou o SENHOR DEUS o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente” (Gn 2,7). Ao homem foi dado o fôlego do próprio Deus, portanto, o homem era o ser vivente mais aproximado de Deus. Mas o homem estava sozinho, e Deus entendeu que isto não era bom. Deus então decide criar uma auxiliadora idônea (Gn 2,18, 20a). Nos versículos 21 e 22 lemos que Deus então provocou um sono profundo no homem, retirou uma de suas costelas e formou dela a mulher.
Interpretamos essa passagem como nos dizendo que, já que Deus soprou dentro do homem o seu próprio fôlego de vida, o homem é, portanto, a criatura mais aproximada de Deus. A mulher, entretanto, foi criada a partir do homem, estando a um degrau abaixo do homem na proximidade de Deus. Ainda mais, como a mulher foi criada com a finalidade de auxiliar o homem, isto era interpretado como se ela fosse criada para ser uma escrava para o homem, novamente demonstrando que ela estava a um degrau abaixo dele. Por conseguinte, um homem que se vestisse de mulher estaria se diminuindo, e por implicação, estaria rebaixando todos os homens ao nível das mulheres. Da mesma forma, a mulher não deveria usar vestes masculinas, pois ao fazê-lo, ela estaria sendo elevada ao “status” de homem e causando descrédito e vergonha è eles.
David Payne escreve na série “Estudos Bíblicos Diários” sobre Deuteronômio 22,5:
“Existem razões para crermos que a lei descrita no versículo 5, não esteja relacionada com a aberração sexual (segundo palavras do autor), conhecida como travestismo, mas que seja um repúdio à certas práticas pagãs daquela época. Portanto, esta lei, hoje em dia, não seria mais do que uma guia de distinção, do que aquela descrita no versículo 12, a respeito das franjas das bordas da manta a ser usada pelos israelitas, estas franjas, qualquer que seja a sua origem, pretendiam lembrar a cada um dos israelitas da sua obrigação de obedecer a Deus e à sua Lei. Com efeito, estas franjas fizeram os israelitas distintos dos cananeus, na sua maneira de vestir.
Existem evidências que indicam que os praticantes da prostituição nos templos, especialmente os homens, usavam roupas do sexo oposto. Se aceitarmos esta afirmação, podemos então concluir que as instruções contrárias ao “travestismo” encontradas em Deuteronômio 22,5, na verdade nos dizem que:
1. Os hebreus devem ser imediatamente identificados como tal, ou seja, eles não devem agir nem vestir-se como os habitantes das terras para onde Deus os trouxe.
2. Os hebreus devem observar as separações de gênero, de maneira a não macular a imagem masculina com a feminina (sociedade patriarcal, machista).
3. Os hebreus não devem envolver-se em práticas idólatras.
Aparentemente Jesus não estava muito incomodado com vestimentas. De fato, no Sermão da Montanha, encontramos este ensinamento: “E quanto ao vestuário, por que andais solícitos? Olhai os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; e eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer um deles. Pois se Deus assim veste a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, não vos vestirá muito mais a vós, homens de pouca fé?” (Mt 6,28-30)
SUMÁRIO DE PASSAGENS RELEVANTES NAS ESCRITURAS HEBRAICAS
Note bem que todos os Livros das Escrituras Hebraicas, de toda esta Literatura, somente quatro passagens que são erroneamente interpretadas como condenatórias da homossexualidade e uma que trata da questão do uso de roupas do sexo oposto. A história de Sodoma e Gomorra não condena a homossexualidade em si, mas sim os repetidos atos de falta de solidariedade em relação aos outros, que culminou com a tentativa de estupro dos visitantes angélicos de Ló. As passagens citadas, nos livros de Levítico e Deuteronômio, não são condenações à homossexualidade em si, mas à prática de atividade sexual realizada durante cultos aos ídolos. Essas condenações, em linha com o Primeiro Mandamento, representam uma condenação à IDOLATRIA. O termo sodomita aparece ainda em várias outras passagens da Bíblia, mas em nenhuma delas este termo têm a conotação “homossexual”, que se tenta atribuir, devendo na verdade ser substituído por prostitutos ritualísticos ou do templo.
Por mais incrível que possa parecer para alguns, além de não haver palavras de condenação à homossexualidade nas Escrituras, podemos ainda afirmar que existem várias passagens que apresentam uma imagem positiva da homossexualidade. Veremo-nas mais adiante, na medida em que prossegue o nosso estudo.
A PERSPECTIVA CRISTÃ
Todos aqueles cristãos que tentam aplicar a sua própria interpretação das Escrituras na sua própria vida ou na vida de outrem estão, na verdade, violando os ensinamento de Cristo. Paulo, na sua Carta aos Gálatas, nos fala a respeito da Lei: “Todos quantos, pois, são das obras da lei estão debaixo de maldição; porque está escrito: ‘Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no Livro da Lei, para praticá-las’. É evidente que, pela Lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé” (3,10-11). Paulo continua a explicar: “Mas, antes que viesse a fé, estávamos sob a tutela da Lei e nela encerrados, para que essa fé que, de futuro, haveria de se revelar. De maneira que a Lei nos serviu de pedagogo para nos conduzir a Cristo, a fim de fôssemos justificados pela fé. Mas, antes, tendo vindo a fé, já não permanecemos subordinados ao pedagogo” (3,23-25).
Não interprete mal esse ensinamento. Paulo não está de maneira nenhuma tentando diminuir ou depreciar a Lei Judaica. Ele mesmo era judeu e um fariseu. Na sua juventude ele era extremamente zeloso em relação às tradições de seus pais (Lei), segundo o que ele nos revela em Gálatas 1,14. Mas a Lei foi designada para um período específico no mundo, o período prévio à vinda do Messias.
Jesus nos explica em Mateus 5,17: “Não penseis que vim para revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir”. Jesus, o Messias Judeu, cumpriu e complementou a Lei. Em outras palavras, os seguidores de Jesus Cristo, os cristãos, não mais estão sob o jugo da Lei Judaica mas sob a Graça de Deus. Paulo nos explica: “Não anulo a Graça de Deus; pois, se a justiça é mediante a Lei, segue-se que Cristo morreu em vão!” (Gal 2,21).
Conseqüentemente, já que os cristãos estão vivendo sob a Graça e não mais submetidos à Lei, não podem então querer que outros, ou eles mesmos, estejam ainda atados a esta mesma Lei. Os que insistem em fazê-lo estão, como Paulo nos diz de forma tão eloqüente, sob maldição. Esses condenam-se a si mesmos a estar completamente inertes, de pés e mãos atados, pela própria Lei.
Como já vimos anteriormente, seria praticamente impossível cumprir a Lei na sua integridade. O sacrifício de animais, bem como a queima destes holocaustos, por exemplo, não é mais permitida ou legal nos dias atuais. No Livro dos Atos, no capítulo 10, encontramos uma pequena história que demonstra que os requerimentos da Lei foram concluídos e não são mais aplicáveis. Pedro tem uma visão na qual ele estava faminto, os céus se abriram e um grande lençol desceu dos céus com toda a sorte de animais permitidos e proibidos, e ouviu uma voz do céu que lhe disse: “Levanta-te, Pedro, mata e come. De modo nenhum, Senhor. Pedro retrucou. Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda. A voz respondeu: Não considere impuro aquilo que Deus purificou” (Atos 10,13-15).
Mais ainda, em Hebreus 10,4, aprendemos que é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados, e continuamos a aprender no versículo 10, que pela vontade de Deus temos sido santificados mediante a oferta do Corpo de Jesus Cristo de uma vez por todas. Então vemos que de acordo com ambos os Livros (Atos e Hebreus), as práticas estipuladas pela Lei foram complementadas pelo sacrifício de Jesus Cristo e já não se aplicam mais aos cristãos e às cristãs.
Cristãos e cristãs, se a Lei já não mais se aplica, então é um GRANDE ERRO tentar aplicar qualquer parte desta mesma Lei à vida de qualquer pessoa! A única Lei que os cristãos e as cristãs devem seguir é a Lei do Amor, como ensinada por Jesus Cristo: que devemos amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos.
Próximo estudo: Romanos 1

ROMANOS 1
Romanos 1,18-29:
18 “Pois do céu é revelada a ira de Deus contra toda a impiedade e injustiça dos homens que detêm a verdade em injustiça. 19 Porquanto, o que de Deus se pode conhecer, neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. 20 Pois os Seus atributos invisíveis, o Seu eterno poder e divindade, são claramente vistos desde a criação do mundo, sendo percebidos mediante as coisas criadas, de modo que eles são inescusáveis; 21 porquanto, tendo conhecido a Deus, contudo não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, antes nas suas especulações se desvaneceram, e o seu coração insensato se obscureceu. 22 Dizendo-se sábios, tornaram-se estultos, 23 e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, e de aves, e de quadrúpedes, e de répteis. 24 Por isso Deus os entregou, nas concupiscências de seus corações, à imundícia, para serem os seus corpos desonrados entre si; 25 pois trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura antes que ao Criador, que é bendito eternamente. Amém. 26 Pelo que Deus os entregou a paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contrário à natureza; 27 semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para como os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro. 28 E assim como eles rejeitaram o conhecimento de Deus, Deus, por sua vez, os entregou a um sentimento depravado, para fazerem coisas que não convêm” (há variedades de verções dos termos, dependente de qual tradução da Bíblia usamos).
Quando nos confrontamos com coisas que não entendemos completamente é natural que fiquemos desconfiados e temerosos. Quando ouvimos pessoas expressando emoções de maneira completamente contrárias ao que sentimos, e talvez nós podemos fazer uma auto-análise e pensar “eu jamais poderia pensar desta maneira”. É normal que essa atitude provoque uma pausa para pensar, para refletir. É normal que busquemos questionar no mais íntimo de nosso ser “será que poderia pensar dessa mesma maneira?” Quando nosso pastor ou nossa pastora, ou líder espiritual, ou rabino, sobe em um púlpito e denuncia pensamentos, descreve emoções como pecaminosas, demoníacas, depravadas, doentes; quando um homem de Deus faz alusão à Bíblia como prova da pecaminosidade de alguém; bem, a quem recorrer? Como argumentar? A Bíblia diz isto, eu creio nisto e ponto final?
Quando é dito que a Bíblia aprova e autoriza a escravidão, poucos contestaram esta teoria durante séculos. Quando é dito que a mulher deve ser submissa ao homem porque está expresso na Bíblia, somente as mulheres expressaram objeção, mas quem as ouviu? Bem, na verdade em algumas partes do mundo, elas ainda não são ouvidas. Quando foi dito que feiticeiros devem ser executados, muitas mulheres foram mortas, aliás muitas mulheres eram culpadas apenas pelo crime de serem idosas, ou sábias, ou por não serem simpáticas. Quem liga para isso? Quando foi dito que a Bíblia diz que homossexuais devem ser mortos, eles foram torturados, atados em postes e queimados. Através dos anos esses crimes foram todos impetrados em nome de Deus, como interpretados na Bíblia.
Vivemos no século 21, e a maioria das pessoas já não acredita que a Bíblia justifique a escravidão e promova a subserviência da mulher; e mulheres não são mais executadas por feitiçaria, ao menos nas nações ocidentais. E quanto aos homossexuais??? Bem, na verdade homossexuais ainda são perseguidos e executados, assim como minorias raciais que ainda são perseguidas e executadas também. Todos culpados pelo pecado de serem diferentes.
Em púlpitos ao redor do mundo, muitos ministros de Deus, ainda descrevem homossexuais como maus, demoníacos, pecaminosos, depravados, doentes e loucos, e até fazem alusão à Bíblia como prova de “sua” pecaminosidade. Uma das duas passagens bíblicas mais citadas que são usadas como prova de que a Bíblia condena a homossexualidade é:
Romanos 1,26-27:
“Pelo que Deus os entregou à paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural no que é contrário à natureza; semelhantemente, também os varões, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, varão com varão, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a devida recompensa do seu erro”.
O que se segue, nos versículos 28 a 32 é uma verdadeira lista de todas as formas de mal e depravação. Esses dois versículos acima, retirados de seu contexto, e seguidos dessa lista dos horrores, certamente causam a impressão de que Deus considera os homossexuais, e a homossexualidade particularmente como maléfica e depravada. É o que acontece quando alguém ignora o contexto da passagem acima descrita.
Se levarmos em consideração o contexto, encontraremos um quadro completamente diferente do que é aquilo que Deus realmente condena. Ao contextualizarmos, vamos perceber que a linha de raciocínio de Paulo inicia-se no versículo 18 e segue até o fim desse capítulo, como mostrado no início deste estudo.
Algumas coisas desagradam a Deus, é verdade, mas Deus está a irar-se com aqueles que:
• omitem a verdade de Deus,
• não honram, não glorificam, nem são gratos e reconhecidos a Deus,
• substituem a verdade de Deus pela mentira, e
• adoram e servem aos ídolos ao invés do Criador.
Em uma palavra: idólatras.
A ira de Deus está direcionada àqueles que praticam idolatria em todas as suas formas. Note que as três primeiras palavras do versículo 27, independentemente de que tradução se use, se refere a algo que acontece anteriormente “Pelo que…”; “por causa…”; “Por isso…”. Os versículos 26 e 27 não são versículos auto-suficientes. Eles explicam quem provoca a ira de Deus, e o que causa o seu comportamento anômalo. Idólatras provocam a ira de Deus, e o seu descontentamento ao adorarem os ídolos.
Onde anteriormente encontramos pessoas que envolveram-se em práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo como expressão de adoração ritualística de ídolos? Nas condenações contidas em Levíticos e Deuteronômio. Na condenação expressa em relação à prostituição ritualística que acontecia nos templos destinados aos ídolos.
As três primeiras palavras do versículo 26 nos dizem que nas suas práticas idólatras as pessoas envolviam-se em relações degradantes. As mulheres mudaram suas relações naturais por outras contrárias à sua natureza. Apesar do que literalmente pode-se entender, essa passagem refere-se a mulheres que envolveram-se em práticas sexuais com prostitutas do templo, essa passagem pode também ser um referência à pratica de bestialidade, que era também uma prática idólatra comum, naquela época. Assim como mulheres envolveram-se em relações bestiais como um ato de adoração aos ídolos, homens também envolveram-se em relações com outros homens, como forma de adoração idólatra.
Gostaria entretanto de chamar atenção para uma particularidade. O verbo “cometer” foi traduzido a partir da palavra composta: kat-err-gotzumai. Enquanto que Err-gotzumai significa trabalhando, desenvolvendo, implementando, isto é, é um verbo de ação, quando acrescenta-se estas três letras, kat, antes, é dada uma ênfase ao caráter da palavra, significando que trata-se de um trabalho difícil de ser executado. O que Paulo nos diz, segundo algumas versões, é que um tremendo esforço foi colocado no sentido de se alcançar o trabalho que nos é expresso por essa palavra. Esses homens tiveram que fazer um grande esforço para praticarem sexo com outros homens, mas eles o fizeram assim mesmo. Podemos então supor, sem receios, que Paulo estava se referindo a homens cuja orientação sexual não fosse homossexual, para quem tais práticas seriam naturais, mas para heterossexuais, para quem esse ato implicaria em grande esforço, mas que o teriam feito de qualquer maneira, como forma de adoração aos ídolos.
A Bíblia Anotada New Oxford diz a respeito dos versículos 27 e 28:
“Enquanto que a Torah proíbe um homem “deitar-se com outro homem como com uma mulher” (Lv 18,22), autoridades judaicas contemporâneas de Paulo criticavam uma variedade de comportamentos sexuais comuns no mundo pagão. Apesar de que hoje se emprega essa expressão largamente como uma referência à homossexualidade, a linguagem que refere-se às praticas contrárias à natureza era mais usada nos dias de Paulo, não para denotar a orientação da atração sexual, mas a tolerância e prazer exagerados, sem medidas (lascívia), que cria-se, enfraquecesse o corpo (a recompensa de seu erro)”.
Concluímos o nosso estudo, por enquanto.
Próximo estudo Romanos 1,26-27, (segunda parte).

Romanos (parte 2)
Na apostila anterior tentamos demonstrar que as condenações de Paulo, nestes versículos, estavam direcionadas às mesmas práticas pagãs que foram erroneamente identificadas como homossexualidade nas Escrituras Hebraicas.
Romanos 2,1:
1 “Portanto, és inescusável, ó homem, qualquer que sejas, quando julgas, porque te condenas a ti mesmo naquilo em que julgas a outro; pois tu que julgas, praticas o mesmo”.
De que maneira esta passagem se relaciona à anterior? Bem, eu creio que Paulo está dizendo que aqueles que julgam os outros estão usurpando uma prerrogativa de Deus. Somente Deus pode julgar os homens. Não temos permissão para julgar uns aos outros. Quando julgamos aos outros, ascendemos ao trono da (falsa) religiosidade, e esta atitude arrogante é equivalente à idolatria. Quando o fazemos, nos colocamos acima dos demais semelhantes, com a suposição de que temos o direito de ditar-lhes como devem viver. Nos tornamos Deus em nossa própria opinião, e isso é IDOLATRIA.
Existem igrejas que, apesar de concordarem que os versículos 18 a 25 tratam da idolatria, acreditam que os versículos 26 a 32 são condenações à homossexualidade, e que a “depravação” da homossexualidade se manifesta nas condenações expressas nos versículos de 29 a 32. Está claro que as pessoas que assim interpretam têm que ignorar o versículo 26, bem como os versículos 28 e 2,1. Do contrário, o versículo 2,1 deveria estar dizendo que qualquer um que julga os outros estaria envolvendo-se em um comportamento homossexual, o que não tem sentido. Então Paulo estaria julgando os semelhantes e assim também igualando-se aos idólatras, segundo a nossa explanação no primeiro parágrafo desta apostila.
Devemos ter como evidente nessas passagens do primeiro capítulo de Romanos do versículo 18 em diante uma crítica veemente contras os males da idolatria. A homossexualidade não é tratada nessa passagem, mas sim as práticas sexuais, praticadas pelos prostituto (a)s do templo, que envolviam-se em relações sexuais com pessoas do mesmo sexo, como parte dos rituais de adoração de ídolos (rituais de fertilidade), e que já foram estudadas em apostilas anteriores.
Como foi demonstrado, a única maneira que uma pessoa pode usar esses versículos como condenação à homossexualidade, seria tirando-os de seu contexto, fazendo uma inconveniente, inconsistente e deliberada mudança no significado intrínseco das palavras de Paulo, a fim de acomodá-las numa visão homofóbica. Na minha opinião, meus amigos e minhas amigas, fazer isso significa “mudar a verdade de Deus em mentira e honrar e servir à criatura… Amém”.
Romanos 1,26-27 (VBJ):
Por isso Deus os entregou a paixões aviltantes: suas mulheres mudaram as relações naturais por relações contra a natureza; igualmente os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam em desejo uns para com os outros, praticando torpezas homens com homens recebendo em si mesmos a paga da sua aberração”.
Romanos 1,26-27 (NVBI):
“Por causa disto, Deus os entregou a vergonhosas paixões. Até suas mulheres trocaram relações naturais pelas não naturais. Do mesmo modo os homens também abandonaram relações naturais com mulheres e estavam inflamados pela paixão de um pelo outro. Homens entregavam-se a atos indecentes com outros homens e recebiam em si mesmos a punição devida por sua perversão”.
Um dos principais argumentos contra a homossexualidade (ou à introdução da identidade de gênero) tem sido: “não é natural”. Um dos argumentos favoritos usado contra a homossexualidade é “Deus criou Adão e Eva, não Adão e Ivo”. Este é um não-argumento porque, naturalmente, Deus criou Adão e Ivo, e Maria e Jorge, e Alice e Suzana, Deus fez cada de nós, mas negar a validade de uma orientação porque esta não foi descrita no Jardim do Édem é conseqüentemente “não natural”, é absurda, não obstante a poesia.
Os seres humanos são os mestres do “não natural”, talvez começando com a primeira vez que alguém tirou a pele de um animal e usou-a como roupa ou como abrigo. Dos carros que dirigimos, aos televisores a que assistimos; dos computadores que usamos para permitir-nos a comunicação através do mundo, ao despertador que nos acorda pela manhã; do último jantar congelado da noite, ao forno de microondas que usamos para aquecê-lo, cada aspecto de nossas vidas celebra o “não natural”. Mesmo os Amish (ortodoxos) da Pensilvânia que se abstêm de nossas modernas conveniências “não naturalmente” arreiam seus cavalos às carroças para chegar à cidade.
Mas o que Paulo quer dizer quando usa o termo? Na língua original, as palavras usadas aqui em Romanos 1,26 eram para phusin, traduzido como “contra a natureza”, que muitos estudiosos interpretaram como se referindo à homossexualidade. Entretanto, nós verificamos que Paulo usa estas mesmas palavras em Romanos 11,24 para explicar aos gentios que embora estes não sejam naturalmente parte dos escolhidos, Deus dá boas-vindas aos gentios e está disposto a enxertá-los na árvore da família, e também disposto a enxertar de volta, nessa mesma árvore da família, aqueles escolhidos que haviam se afastado: “Com efeito, se você (gentio) fosse cortado de uma oliveira silvestre por natureza (phusin) e contra a natureza (para phusin) fosse enxertado na oliveira mansa (a árvore da família dos eleitos), com maior razão os ramos naturais (os escolhidos que se afastaram) serão enxertados (de volta) na oliveira a que pertencem” (NVBI).
É totalmente evidente que o uso aqui, por Paulo, da frase, não tem nada a ver com homossexualidade, nem é uma crítica da imoralidade. Mas propriamente Paulo refere-se a phusin (ou phusis) para designar àquilo que é inato à pessoa, ou a como nasceram. Nós encontramos um exemplo deste uso em Gálatas 2,15. O que a VBJ diz é “Nós somos judeus de nascimento e não pecadores da gentilidade”, traduzido por “Nós que somos judeus por nascimento e não ´pecadores de gentios’”, na NVBI.
Nós sabemos que Paulo usou o termo “natureza” para referir-se a diferentes coisas em diferentes ocasiões. Além do que já mostramos, em 1 Coríntios 11,14, Paulo escreve, “A natureza mesma das coisas não vos ensina que se um homem tem cabelos compridos, é desonroso para ele…?” (NVBI). Não é verdade que a natureza induz o cabelo a crescer e ficar comprido? Não estaria contra a natureza cortá-lo? Considere que Paulo era um homem educado, que, por suas próprias palavras, excedeu a seus pares no conhecimento da lei judaica, dos costumes e das tradições. Certamente conhecia o Sansão do livro dos Juízes.
No capítulo 16,10 nós encontramos Sansão dizendo a Dalila, “Nenhuma lâmina foi jamais usada em minha cabeça”, disse-lhe ele, “porque eu sou nazireu consagrado a Deus desde o nascimento. Se minha cabeça fosse raspada, minha força deixar-me-ia, e tornar-me-ia tão fraco quanto qualquer outro homem” (NVBI). Quando o cabelo de Sansão foi cortado, sua famosa e poderosa força deixou-o e não retornou até que seu cabelo crescesse outra vez mais. Se os nazireus fossem pessoas consagradas para servir a Deus, o que induziu o comentário de Paulo em 1 Coríntios? É possível que todos os homens aptos de Coríntio eram solicitados a servir nas forças armadas (com cortes militares de cabelo) e que aqueles cujos cabelos permaneceram não cortados esquivam-se de seus deveres? Neste exemplo do uso da natureza, nós descobrimos que a conotação não era sobre moralidade, ou sobre o que é inato, ou um acidente de nascimento, mas sim responsabilidade meramente cívica.
Em Efésios 2,3-4, Paulo escreve, referindo-se aos costumes mundanos: “Todos nós também vivemos entre eles alguma vez, gratificando os desejos de nossa natureza pecadora e seguindo seus desejos e pensamentos. Como os demais, nós éramos por natureza objetos da ira. Mas por causa do grande amor de Deus por nós, Deus, que é rico em mercê, fez-nos vivos com Cristo, mesmo quando nós estávamos mortos em transgressões – pela graça que você foi salvo” (NVBI). Aqui, Paulo demonstra que Deus nos levantou para estar acima da natureza; que nós devemos transcender à natureza, que nós devemos andar no Espírito e não satisfazer a luxúria da carne. Por um lado, parece que Paulo glorifica o conceito de ser “com a natureza, não contra ela”, enquanto que por outro lado nos mandaria estar “acima da natureza”, e não em harmonia com ela.
Como Paulo usa o termo natureza de diversas e diferentes maneiras nas epístolas, nenhum estudioso pode saber com absoluta certeza o significado específico da palavra de Paulo nas passagens destacadas acima. Entretanto, a evidência de Gálatas 2,15 certamente dá-nos espaço para inferir que os atos referidos em Romanos 1,26-27 eram atos que não eram naturais às pessoas que os praticavam. Isto é, heterossexuais que travaram atividade homossexual (para facilitar a adoração de ídolos). Se nós estamos certos de que Paulo condena aqueles que se engajam em atividade sexual que não é natural para eles, então não somente a condenação aplicar-se-ia aos heterossexuais que se engajam em atividade homossexual, mas aplicar-se-ia também aos homossexuais que se engajam em atividade heterossexual.
Há igrejas que negam que a homossexualidade seja inata, uma orientação individual, acreditando e ensinando que é uma escolha de estilo de vida, ou “atividade” aprendida. Aqueles que tomam essa posição fogem do senso comum e da decência. Negam a experiência da própria vida do indivíduo, suas verdades pessoais sobre si mesmos. Negam a evidência científica que sugere fortemente que a homossexualidade é um traço biologicamente determinado, não uma escolha de estilo de vida. Negam a posição da Associação Psiquiátrica Americana que parou de classificar a homossexualidade como uma doença em 1973. Escolhem acreditar que os homossexuais são tão mentalmente desequilibrados ou depravados que deveriam mais propriamente ser açoitados, torturados e assassinados do que desistir deste “comportamento escolhido”. Defendem o ponto de vista equivocado de que a homossexualidade não é observada em nenhuma espécie animal à exceção do ser humano. Essa afirmação é evidentemente incorreta. Pesquisas mostraram que a atividade homossexual foi de fato demonstrada em mamíferos, peixes e pássaros.
É importante anotar que a Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional em seu artigo Natural/Natureza (The International Standard Bible Encyclopedia) afirma:
“… a palavra natureza está contaminada por conceitos não bíblicos a partir do pensamento grego em diante, especialmente conceitos carentes da confissão bíblica fundamental de Deus como Criador. A ambigüidade do termo (por quaisquer razões) admite um espectro de uso que varia do abstrato e universal à subjetiva e sensata vida de uma pessoa…. O relacionamento natural entre os sexos está estabelecido na ordem regular da natureza (Romanos 1,26). Os pagãos são culpados pela violação desta physis (isto é, natureza).”
Novamente encontramos esta referência à idolatria como sendo o que é “contra a natureza”, e a condenação indicada em Romanos 1,26-27.
Próximo estudo: 1 Coríntios 6,9

1 Coríntios 6,9–10:
“Não sabeis que o ímpio não herdará o Reino de Deus? Não vos iludais. Nenhum destes herdará o Reino de Deus: o imoral, os idólatras, os adúlteros, malakoi, arsenokoitai, os ladrões, o ganancioso, os bêbados, os caluniadores nem os extorsionários herdarão o Reino de Deus”.
Paulo apresenta ao leitor uma lista daqueles que ele declara que não herdarão o Reino de Deus. A palavra no grego original parafraseada por ímpio é akidos e significa iníquo; por extensão, mau; por implicação, traiçoeiro; especialmente bruto: iníquo, pecaminoso.
Há duas palavras que certamente chamarão sua atenção de imediato: malakoi e arsenokoitai. Você não encontrará essas palavras em nenhuma tradução, você encontrará no entanto várias palavras e frases. O que eu mostrei acima são as palavras na língua original. A verdade é, ninguém sabe realmente com certeza que o as palavras significam, e, conseqüentemente, nem o que Paulo quis dizer realmente.
Comparando as palavras em diferentes traduções, você notará grandes variações em como estas palavras são definidas:
• Rei James: “nem afeminados nem abusadores de si mesmos com a humanidade”;
• Nova Rei James: “nem homossexuais, nem sodomitas”;
• Bíblia de Jerusalém: “nem os depravados, nem as pessoas de costumes infames”;
• Revisada Padrão (apenas uma palavra): “homossexuais”;
• Nova Internacional: “prostitutos masculinos; nem ofensores homossexuais;
• Contemporânea Inglesa: ”nem o que comporta-se como um homossexual”;
• Novo Testamento Inclusivo: “prostitutas e pederastas”;
• Oxford Comentada: “prostitutos masculinos, sodomitas”;
• Nova Versão Internacional (Edição 2002): “Nem homossexuais ativos e passivos”;
• Editora Ave Maria: “nem os efeminados, nem os devassos”;
• Sociedade Bíblica do Brasil (Edição 1969): “nem efeminados, nem sodomitas”;
• Sociedades Bíblicas Unidas: “nem adúlteros, nem effeminados (sic)”;
• Tradução Ecumênica da Bíblia: “nem os efeminados, nem os pederastas”;
• Reina Valera: “nem os efeminados, nem os que deitam com homens”.
É muito interessante que a Bíblia Contemporânea Inglesa usa a frase comporta-se como um homossexual. Se a censura é contra alguém que “comporta-se” como um homossexual, então os escritores desta tradução acreditam que as palavras não se referem nem se aplicam aos homossexuais, mas aos heterossexuais que se comportam (leia-se: engajam-se em comportamento homossexual) como homossexuais. Podia isto novamente ser uma referência ao templo de culto ou à prostituição em santuários? (Enquanto que a Nova Versão Internacional (Edição 2002, da editora Vida): “Nem homossexuais ativos e passivos”; é, no mínimo, mal intencionada…).
Por que uma tão larga gama de diferenças entre as traduções? As palavras são extremamente obscuras. Malakoi (ou malekos) aparece somente quatro vezes no Novo Testamento. Em três vezes significa fino ou macio, como quando Jesus a usou para falar de João Batista em Mateus 11,8: “… Mas que fostes ver? Um homem vestido em roupas finas (malekos)? Mas os que vestem roupas finas (malekos) vivem nos palácios dos reis” (VBJ). A outra vez onde a palavra aparece é na versão de Lucas deste mesmo discurso (7,25).
Enquanto que no Dicionário Strongs de Grego do Novo Testamento (Strongs Greek Dictionary of The New Testament) lemos como segue: malakos = macio (isto é, roupas finas); figurativamente, um afeminado, alguns dicionários gregos definem-na como significando moralmente fraco. Martinho Lutero traduziu-a como fraco (em corpo, mente ou caráter).
No Dicionário Vine, de Palavras do Novo Testamento (Vine’s Dictionary of New Testaments Words), se você procurar pela palavra macia, o livro mostra: Veja Efeminado. Lá você encontrará o original: malakos: macio, macio ao toque, fino, é usado como (a) roupa fina; (b) metaforicamente, em um mau sentido, “efeminado”, não simplesmente de um macho que pratique formas de lascívia, mas das pessoas em geral que são culpadas de apego aos pecados da carne, voluptuosos.
Observe a palavra afeminado(s) usada tanto na Bíblia de Jerusalém como indicado acima, bem como no dicionário Strongs. Tom Horner, em seu livro Jônatas amou Davi (Jonathan Loved David), identifica efeminados como: “…os homens extremamente efeminados que transformaram a homossexualidade em uma profissão. Estes eram os efeminados, os prostitutos homossexuais da Grécia antiga, os assim chamados “cães sagrados” dos santuários cananeus, e os eunucos seguidores da deusa Cibele… Em algumas sociedades, tais como aquelas da antiga Frigia, os efeminados foram olhados com honra e respeito; mas na sociedade hebraica, em todos os períodos que conhecemos, não o eram”. Outra vez encontramos a referência aos prostitutos de santuários, aqueles que se engajavam no sexo do mesmo gênero para o culto de ídolos.
Horner continua: “Na Grécia clássica, também, homens efeminados geralmente eram menosprezados. Por que? Porque representavam o oposto exato do tipo heróico ou nobre de amor que era muito admirado da época do Hércules legendário, que depois, na Roma imperial foi ligado eroticamente a dois homens (e numerosas mulheres) do imperador Adriano. Este modelo heróico foi idealizado como o mais nobre, e em alguns casos, romântico, tipo de amor. Em O Banquete, de Platão, é elogiado como a máxima expressão do amor físico (e espiritual, sinal de virtude). E, pelo contrário, sair com um efeminado era algo ordinário. Todo homem poderia fazê-lo; e em algumas sociedades quase todo homem o fez uma vez ou outra. Além disso, como o patriarcado aumentou seu domínio nas sociedades mediterrâneas orientais, o homem em que faltavam traços viris, como a fêmea a quem ele tão proximamente se assemelhou, foi mais e mais estigmatizado” (Páginas 22, 23).
A segunda palavra usada na passagem destacada, arsenokoitai (arsenokoites) é ainda mais obscura. Aparece somente duas vezes no Novo Testamento, aqui e em 1 Timóteo 1,10. Esta palavra é tão obscura que o dicionário Vine nem tenta defini-la. Em vez de uma definição, o dicionário dá as duas únicas passagens onde a palavra aparece. O dicionário Strongs usa: “um sodomita: abusador (que perverte) a si mesmo com a humanidade. Derivado de arsen = macho, homem, e kemai = mentir de forma contumaz”.
Rev. Robert Arthur, em seu livro Homossexualidade à Luz da Linguagem e Cultura Bíblicas (Homosexuality in the Light of Biblical Language and Culture), falando de cultos pagãos, escreve:
Era extremamente comum, portanto, encontrar deuses e deusas que recebiam presentes de apreciação e de adoração de seus adeptos sob a forma de atos sexuais. Para facilitar o oferecimento de tais presentes, homens e mulheres eram ligados (a templos) para receber estes presentes e tornaram-se conhecidos como prostitutos do templo (tanto homossexuais como heterossexuais). (…) A adoração da fertilidade deste tipo e expressões similares continuaram por pelo menos nos primeiros 100 anos da era cristã, em lugares tais como o templo de Diana em Éfeso. Na língua grega a palavra usada para os prostitutos do templo nestes lugares da adoração pagã era arsenokoites. Não foi antes de por volta de 200-250 da era cristã que uma homofobia marcante (…) começou a rastejar na Teologia. Por esta época, a adoração cultual do sexo começou a morrer e a palavra usada por Paulo para descrever os prostitutos do templo estava começando a tornar-se obsoleta. É importante observar que (…) ao tempo de Cristo a palavra de uso comum que significava ´homossexualidade´ era homophilia. (…) Esta palavra foi usada na língua grega até bem depois da época da morte de Paulo. Mas esta palavra nunca foi usada nas Escrituras.
Padre John McNeill, sacerdote jesuíta,
em seu trabalho A igreja e o Homossexual (The Church and the Homosexual), escreve que o uso da palavra, no segundo século, na Apologia de Aristides, parece indicar que significa um corruptor obsessivo de meninos. Do mesmo modo, o professor Robin Scroggs, do Seminário Teológico de Chicago, em seu livro, Novo Testamento e Homossexualidade (New Testament and Homosexuality), posiciona-se que ambas as palavras – malekos e arsenokoites – referem-se aos parceiros ativos e passivos na prática grega da pederastia, a qual não deve de modo algum ser confundida com homossexualidade. Pederastia é a molestação de crianças, pura e simplesmente. Um relacionamento ‘pederástico’ existe entre um amante (geralmente um homem maduro), e o amado, um garoto jovem o bastante para ainda ser imberbe. O amante era sempre o parceiro ativo; o amado era solicitado a ser passivo. Nem todo relacionamento era sexual em sua natureza, mas quase todos o eram. O amado não devia ser sexualmente satisfeito, o que era prerrogativa exclusiva do amante apenas. Quando o amado tornava-se velho o bastante para ter barba e por outro lado tornar-se mais viril, era trocado por uma pessoa mais nova. A razão para isto era porque o ideal era um menino que se assemelhasse a uma mulher. Os meninos deveriam depilar os pelos faciais, deixar seu cabelo crescer, alguns até usavam maquiagem. O professor Scroggs sustenta que este menino era o malekos, e o adulto, o arsenokoites, referidos nesta passagem da Escritura Sagrada.
Enquanto que a pederastia parece ser, equivocadamente, homossexual por natureza, a realidade é que as pessoas engajadas nessa atividade eram, para a maioria das pessoas, heterossexuais. A pederastia era considerada apropriada ao treinamento de um menino para a masculinidade. O relacionamento não era permanente, durando somente o tempo em que o garoto mantinha sua aparência jovem. Não havia nenhuma mutualidade, nenhuma satisfação ou prazer mútuo, e o garoto era desumanizado, usado pelo amante como uma coisa, não como uma pessoa para amar e estimar. Por outro lado, o amado recebia regularmente presentes do amante. O amado, por sua vez, freqüentemente tornava-se o amado de diversos amantes, todos os mais lucrativos para ele, tornando-se, finalmente, um prostituto masculino, por tanto tempo quanto sua beleza resistisse.
Pederastia, ainda que culturalmente aceita, era moralmente errada em muitos aspectos, como demonstrado acima. Não pode de maneira alguma ser interpretada como uma descrição da homossexualidade, que é o amor emocional, espiritual, romântico, afetivo, de dedicação mútua, e sexual, entre parceiros mútuos do mesmo gênero.
A Nova Bíblia Comentada de Oxford, publicada em 2001 e considerada um dos comentários mais autorizados de todas as Bíblias, oferece a seguinte nota de rodapé para os versículos destacados:
“Os termos gregos traduzidos como prostitutos masculinos e sodomitas não se referem aos “homossexuais”, como em inapropriadas traduções mais antigas; “masturbador” e prostitutos masculinos podem ser uma melhor tradução”.
Isto termina este nosso estudo.

Texto Retirado do site da Comunidade Betel, Igreja Protestante Reformada Inclusiva – http://www.betelrj.com/

1 Response to "Ser Cristão e Homossexual parte II"

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O Autor

Ativista dos Direitos Humanos (Principalmente LGBTs ); Teólogo;Homeopata; Psicanalista, especialista em Sexualidade Humana, Filosofia, Sociologia;Blogueiro.

Este Blog é protegido por direitos autorais

MyFreeCopyright.com Registered & Protected

Enter your email address to subscribe to this blog and receive notifications of new posts by email.

Junte-se a 69 outros seguidores

Psicoterapia Online

Psicoterapia Online

Psicoterapia Online

homofobia-basta@live.com

Me adicione no FacebooK

Curta a comunidade do Blog no Facebook, Clique na Imagem!

Me adicione no Orkut

Me siga no Twitter

Homofobia Basta!

Erro: o Twitter não respondeu. Por favor, aguarde alguns minutos e atualize esta página.

Quer ajudar o Blog? Faça sua Doação!

Portal Colaborativo Teia Livre

Igreja Progressista de Cristo

Parceiros de causa

Se você realmente ama seus amigos, defenda-os da Homofobia!

Contradições no discurso do Senador Magno Malta

Vítimas da Homofobia

Mais fotos

Estatísticas do Blog

  • 439,598 Pessoas viram esse Blog
%d blogueiros gostam disto: