Homofobia Basta!

Violência Psicológica, é preciso resguardar a psiqué do homossexual

Posted on: 9 de agosto de 2011

Resolvi falar sobre esse tema pois creio que há poucos relatos clínicos sobre isso com relação a população LGBT.

Fala-se muito de homofobia como aversão a homossexuais que culmina em agressões físicas e verbais, que restringe este segmento ao trabalho, a saúde, aos direitos fundamentais, porém pouco se fala nos danos psicológicos que em um período de médio a longo prazo provoca um fenômeno de homofobia internalizada que na psicanálise podemos descrever da seguinte forma: A homofobia internalizada tal como foi definida por Meyer e Deon, (1998) consiste na canalização para o self do próprio homossexual de todas as atitudes de valores negativos recebidos pela sociedade heterosexista, levando à desvalorização desse self, resultando em conflitos internos e pouca auto-estima.

Esta vertente da Homofobia é a principal causadora de problemas psicológicos que variam de uma depressão leve ao suicídio por uma causa “desconhecida”. 

– Para John Hinckle e Kees Van Haeringen professores da Universidade de Gent, embasados em uma pesquisa revelou-se que cerca de 5,9% dos rapazes heterossexuais jovens haviam tentado o suicídio, comparados com os 12,4% dos inquiridos homo e bissexuais masculinos. As percentagens correspondentes para as moças foram 5,4% para as jovens heterossexuais e de 25% para as jovens homo ou bissexuais.Segundo a organização Lambda Education revelou que a Itália possui uma dura realidade: 46% dos inquiridos haviam sido vítimas de atos de discriminação, 37% haviam sofrido actos de violência, 40% pensaram no suicídio e 13% declararam ter tentado o suicídio.

– Para Ribeiro (2006), ao anunciar sua homossexualidade, mais de 50% dos adolescentes receberam uma reação negativa da família. Destes, 66% afirmaram sofrer violência verbal e até física. Mais de 50% dos adolescentes gays afirmaram abusar de substâncias nocivas (cigarros, álcool e drogas) para amenizar esse tipo de mal-estar.Em conclusão a esse a esse assunto, o que se pode perceber, é que: em todo o mundo as vítimas da homofobia, têm um ponto em comum: são em sua maioria do sexo masculino, numa proporção que chega a 6 pra 1. Pesquisa feita pela UNESCO sobre homofobia nas escolas parece apontar para uma explicação: meninos tem muito mais preconceito contra a homossexualidade de outros meninos do que as meninas – e também são muito mais propensos a agredirem seus colegas homossexuais, até mesmo como demonstração de masculinidade, num rito de passagem machista e sexista, que valoriza a discriminação. Para Aquino (2007), os fatores sociais são em geral visos como os que criam os ambientes psicológicos e biológicos. Os fatores sociais são em geral vistos como os que criam os ambientes nos quais os fatores psicológicos predispõem a pessoa ao suicídio.

– Um estudo desenvolvido pelo Parlamento Europeu, que envolve 44 países, cujo título é “O suicídio de crianças e jovens na Europa: um grave problema de saúde pública”, apontou que os problemas causados pela discriminação aos jovens é uma problemática universal e que as suas conseqüências são devastadoras.Os homens gays e bissexuais estão mais expostos a cometer uma tentativa de suicídio que os heterossexuais, segundo os resultados de um estudo epidemiológico realizado na França entre 1998 e 2003 publicados nesta sexta-feira.

As possibilidades de tentar terminar com sua vida são treze vezes maiores para os homossexuais e bissexuais que para o restante da população de sua mesma idade e condição social, indicam os dados preliminares divulgados pelo jornal Libération.O relatório revela além disso que um de cada três indivíduos que comete uma tentativa de suicídio é homossexual ou bissexual.Além disso, os gays e bissexuais com antecedentes de tentativas de suicídio mal se protegem nas relações sexuais com parceiros desconhecidos.A tendência ao suicídio neste setor da população não está vinculada a fatores geográficos, sócio-profissionais ou ao fato de viverem sós ou em família, mas a fatores psicosociaies, como “a homofobia que provoca uma péssima estima pessoal”, segundo Marc Shelly, médico de saúde pública do Hospital Fernad-Vidal de Paris e um dos autores.

Nos casos de suicídio, segunda causa de mortalidade na França depois dos acidentes de trânsito entre os 15 e os 34 anos, é necessário que psiquiatras atualizem seus procedimentos.

Efetuado sobre 933 homens de16 a39 anos, o relatório foi elaborado por pesquisadores independentes franceses sob a supervisão do Instituto Nacional da Saúde e da Investigação Médica (INSERM).

Os poderes públicos devem “acabar com sua apatia ante a amplitude do suicídio de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais”, assegura no jornal o porta-voz de federação francesa de centros de gays e lésbicas (CGL), David Auerbach, para quem “o relatório confirma o que vivemos a cada dia”.

“Se extrapolarmos os resultados, podemos considerar que a metade dos jovens suicidas são homossexuais ou questionam sua orientação sexual”, acrescenta, ao destacar que “o suicídio não está vinculado à homossexualidade, mas à homofobia e é preciso fazer campanhas de prevenção”.

O texto escrito pelo relator Bernard Marquet e, aprovado com unanimidade, é enfático ao confirmar que os índices de suicídios entre jovens lésbicas, gays, bissexuais e transexuais é superior ao de jovens heterossexuais.

O trabalho deixa claro que não é por fazerem parte de uma minoria sexual, mas sim por serem afetados psicologicamente pela discriminação, fator de instabilidade psicológica e física.  O informe segue dizendo que este é um grande problema de saúde pública e que há muito tempo foi subestimado. Além do problema psicológico, há também  a questão social, apontada como a principal causadora de tal drama aos GLBT.

O documento ressalta que o alto risco de suicídio entre jovens gays não está ligado à orientação sexual ou a questão de gênero, mas sim a estigmatização, a discriminação e a marginalização que estes jovens encontram perante a sociedade.

Fatores históricos também são apontados como causadores deste dano aos jovens. Desde a época em que as sociedades criminalizavam as relações entre pessoas do mesmo sexo, as religiões e também os meios de comunicação ridicularizavam expressões e estilos de vida GLBT e, que ainda hoje boa parte de psicólogos e psiquiatras consideram a homossexualidade e a transexualidade doenças.

Por conta disso, os jovens nascem em uma sociedade regida pela heteronormatividade nas famílias e colégios. E, desta maneira, quando o adolescente começa a se descobrir homossexual entra em choque, começa a ter sentimentos de culpa, e, em casos extremos, chega ao suicídio.

Ao término do estudo, constata-se que na Europa onde há grande abertura às minorias sexuais tais fatos ocorrem, pede-se então, maior atenção para outros países como da América do Sul e Oriente Médio, onde a questão ainda é tratada como segundo plano e com conservadorismo. A única diferença é que não há um estudo similar que demonstre tal realidade.

Isso me faz pensar que a integridade do homossexual deve ser preservada tanto fisicamente, psicologicamente e espiritualmente ( no conceito psicanalítico de espiritualidade ).  Famílias desestruturadas, regidas por uma concepção heteronormativa, sob pressão religiosa que possuem um filho homossexual e aparentemente lhe dá todo o suporte e preenche todos os “requisitos” para não serem acionados judicialmente, para não serem “visitados” pela assistência social ou encaminhados a um Psicoterapeuta devem receber uma atenção extra, pois em prática clínica, podemos afirmar que 80% dos LGBTs sofrem a principio discriminação dentro da família, não por abuso físico, mas por abuso emocional, sendo humilhados, ridicularizados, “esquecidos”, desprezados, tratados com menos afetividade, com menos atenção e respeito. É necessário capacitar assistentes sociais e profissionais que zelam pela integridade total da pessoa LGBT, afim de evitar o abuso e a violência psicológica. 

De maneira geral, a violência psicológica está sempre presente na violência física e sexual contra os LGBTs principalmente na violência doméstica ou intrafamiliar, quando o agressor é um membro da família. Neste contexto o agressor vai minando a auto-estima do LGBT, anulando ou desclassificando suas emoções, desvalorizando suas realizações e ridicularizando-a em casa ou na rua.

Problemas de saúde mental, tais como a ansiedade, depressão, disfunções sexuais, transtornos de alimentação, comportamento sexual de alto risco, comportamentos compulsivos, problemas múltiplos de personalidade etc., muitas vezes sequer chegam a ser identificados nos Centros de Saúde, muito menos sua ligação com a situação de violência. Isto porque, muitas vezes, a violência é vista apenas como um problema de polícia, e quando se dá no âmbito doméstico, nem isso.

A violência psicológica inclui todas as condutas ou ações que tenham como propósito ofender, controlar e bloquear a autonomia de outro ser humano, seu comportamento, suas crenças e decisões. Pode ocorrer por meio de agressão verbal, humilhação, intimidação, desvalorização, ridicularização, indiferença, ameaça, isolamento, controle econômico ou qualquer outra conduta que interfira nesse direito básico de autodeterminação e desenvolvimento pessoal.

Não há no Código Penal Brasileiro nenhum artigo específico criminalizando a violência psicológica. Mas, o crime de lesão corporal (art. 129) inclui também a ofensa à saúde de alguém, portanto à saúde mental. Tanto é assim que há decisão judicial reconhecendo que tanto é lesão a desordem das funções fisiológicas como a das funções psíquicas, como é o caso da vítima que desmaia em virtude de forte tensão emocional, produzida por agressão do réu. Assim, algumas vezes, é possível enquadrar a violência psicológica no crime de lesão corporal, na parte que trata da lesão à saúde.

Termino este texto com uma publicação do Psicólogo Klecius Borges em seu livro Terapia Afirmativa:

“A maior parte da problemática trazida a clínica gay tem como pano de fundo a homofobia internalizada. É com base nela que se manifestam uma série de sintomas – tanto no campo emocional quanto no desempenho  sexual propriemente dito -, influenciando enormemente o funcionamento psicológico do indíviduo.

Os efeito da homofobia internalizada podem ser observados na dissociação que muitos pacientes gays fazem entre seus comportamentos e práticas sexuais e sua identidade afetivo-sexual. Essa “dissonância”, que é na verdade uma forma de defesa psiquíca contra a ansiedade gerada pela própria homossexualidade [ que dentro de uma sociedade heterocentrada é vista como medíocre, doentia, “demoníaca” ], acaba por levar a um comportamento sexual sem qualquer vinculação afetiva. Tal comportamento normalmente envolve o uso excessivo de pornografia, a prática do sexo anônimo e a compulsão sexual.

Como parte dessa problemática, se observa também que muitos gays tem dificuldade de estabelecer ou manter uma intimidade amorosa associada à vida sexual. Há inclusive uma crença generalizada, mantida pelos próprios gays, de que gays não se vinculam afetivamente e são naturalmente promíscuos.

Para Coleman et al. ( apud Davies e Neal ) a origem dessa dificuldade estão em não conseguir desenvolver uma identidade positiva e integrada, o que acaba gerando alto grau de estresse psíquico. As consequências dessa situação são problemas de relacionamento interpessoal e padrões de comportamento compulsivos – que, como vimos, têm a finalidade de lidar com a ansiedade.

Outra manifestação comum da homofobia internalizada se dá nos conflitos associados ao papel de gênero masculino. A questão da masculinidade aparece tanto na “persona” ( máscara social ) mais masculina ou mais feminina quanto nas preferências pelo ativo ou passivo nas relações sexuais. A própria comunidade gay, reproduzindo a sociedade machista, valoriza os gays mais masculinos ( que não aparentam ser gays ) e hostilizam os mais femininos. Da mesma forma, os ativos, ou seja, aqueles que preferem o papel sexual associado ao homem, também são considerados superiores e tendem a ser vistos de forma menos negativa. Essa questão costuma ser agravada pelos tabus relativos ao sexo anal, encarado por muitos como sujo e antinatural. A ansiedade em torno dessas questões pode funcionar muitas vezes como catalisador de comportamentos sexuais compulsivos.

Uma das questões mais complexas da sexualidade gay é a compulsão sexual. É muito importante que o terapeuta saiba distinguir entre a atividade sexual mais frequente e variada e o padrão compulsivo. Embora os gays – em função dos efeitos da homofobia internalizada , da história de abuso sexual cultural e de estilo de vida geralmente possibilita maior liberdade sexual – sejam mais vulneráveis à compulsão sexual, esse problema também é comum em heterossexuais. A maior parte dos autores concorda que a compulsão sexual é, na verdade, um transtorno relacionado com a intimidade que tem como função reprimir memórias dolorosas e eliminar sentimentos indesejáveis. O sexo é apenas o veículos escolhido [ muitas vezes inconscientemente ] para lidar com essas feridas. E no caso dos gays ele não é só valorizada como também facilmente obtido.

[…]

Experiência de abuso sexual na infância, embora não façam parte da maioria dos gays, costumam ser um fator importante no desenvolvimento de ordem sexual e afetiva. Vários estudos indicam que crianças gays ( crianças que apresentam características de comportamento com algum grau de não conformidade com o padrão de gênero culturalmente estabelecido ) tendem a sofrer abuso sexual acima da média . Ao contrário do que se costuma afirmar, essas crianças não se tornam gays por causa do abuso; ao contrário, são abusadas porque são gays ( refiro-me aqui à orientação sexual homossexual, e não aos casos nos quais padrões de comportamento homossexual patológico podem ser desenvolvidos em decorrência da experiência traumática de abuso sexual). As experiências de abuso sexual na infância tendem a prejudicar o desenvolvimento psicossexual do indivíduo, levando a padrões afetivo-sexuais disfuncionais. Novamente o problemas não está na homossexualidade em si, mas sim na experiência traumática vivida pelo paciente gay.”

 
Felipe Resende, Psicanalista.

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Ativista dos Direitos Humanos (Principalmente LGBTs ); Teólogo;Homeopata; Psicanalista, especialista em Sexualidade Humana, Filosofia, Sociologia;Blogueiro.

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