Homofobia Basta!

A busca da identidade afetivo-sexual: sofrimento, amargura, ilusão marcam a busca do gay

Posted on: 8 de agosto de 2011

Transamérica e a busca pela identidade

No filme transamérica ( 2005), do diretor Duncan Tucker, Bree, a personagem vivida por Felicity Huffman, é um transexual prestes a se submeter à cirurgia de sexo, e, portanto, de tornar-se anatomicamente o que sempre foi, psíquica e emocionalmente, mas, como sempre acontece na vida real , não sem antes enfrentar uma série de acontecimentos que, concreta ou simbolicamente, irão colocar em xeque essa mudança de destino tão eloquente.

Na tradição do road movies americanos, Bree irá encarar uma longa estrada, cruzando o país ( a América do titulo) de uma costa a outra numa jornada a qual cada nova peripécia que se apresenta parece estar ali para tentar dissuadi-la de seu propósito maior.

O mais interessante, porém, é que essa jornada só é disparada quando Bree descobre, poucos dias antes de assumir concretamente sua  nova identidade feminina, que sua identidade masculina, rejeitada e seguidamente (re)negada, jamais poderá ser definitivamente enterrada. Ela estará irremediavelmente  viva na figura do filho, pois lhe será confiada a tarefa de tira-lo do inferno das ruas de Nova York e conduzi-lo a um futuro na terra dos anjos( Los Angeles). Missão paterna que terá que desempenhar com uma persona de mãe postiça e (des)vinculada do filho, a quem, se escondendo, acredita proteger.

Nessa jornada repleta de revelações com significados anímicos profundos, muitos resgates se darão e todos acabarão, de uma forma ou de outra, tocados pela trama. Como se a grande teia que os envolve se na direção de um destino invisível que se desvela a cada novo embate, a cada nova frustação ou decepção. Sentimentos intensos de amargura, de desamparo e, sobretudo, de não-pertencimento ( de outsider) são o tecido comum que parece ligar não apenas pai(mãe) e filho, mas também quase todos com que se defrontam pelo caminho.

Embora transamérica tenha como protagonista um transexual e como mote principal sua busca por uma identidade que integre corpo e alma, seus temas são universais e, portanto, falam a todos nós que já nos sentimos excluídos, perdidos ou abandonados pela sorte. Mas fala também das possibilidades de encontros e (re)encontros que abrem janelas jamais imaginadas, através das quais saltamos em direção a patamares mais elevados de consciência da nossa humanidade.

Bree encontrará ao fim da jornada simbólica que o filme representa, não somente o que lhe falta/sobrava no corpo, mas, sobretudo, o que lhe faltava à alma : a experiência de ser vista (pela sociedade), (re)conhecida ( pela família) e amada (pelo filho) na sua verdadeira natureza. Um belo filme!

Paixões perigosas

O ótimo filme Notas sobre um escândalo ( Notes on a scandal/ 2006), do diretor inglês Richard Eyre, trata da relação conflituosa entre duas mulheres, a madura Bárbara (vivida por judy Dench) e a jovem senhora Sheba ( interpretada por Cate Blanchett, papel pelo qual foi indicada ao Oscar).

Bárbara, uma professora solitária, amarga ressentida e brilhantemente ferina em seus comentários sobre todos à sua volta, apaixona-se pela aristocrática e aparentemente frágil Sheba. Aproveitando-se da situação que desencadeia o escândalo sobre o qual  o título se refere, Bárbara desenvolve uma sofisticada trama ardilosa para envolver e dominar sua amada. O filme é um verdadeiro tratado sobre o desejo e a paixão em suas manifestações mais sombrias.

Bárbara é uma homossexual enrustida cujo principal passatempo é destilar sua amargura no diário que escreve enquanto cuida de sua gata moribunda.  Envergonhada de seu desejo homoerótico e aprisionada a um padrão de amar profundamente narcisista, só consegue vive-lo de uma forma perversa, repetindo sucessivamente experiências de abandono e rejeição.

Por mais assustador que possa parecer, a psicologia da personagem Bárbara neste filme não é tão incomum  na clínica homossexual. Guardadas as devidas proporções, indivíduos com baixo grau de aceitação de sua identidade homossexual acabam muitas vezes enredando em paixões impossíveis por heterossexuais e, a partir daí, desenvolvendo mecanismos projetivos altamente fanstisiosos. De forma delirante, acreditam que mais cedo ou mais tarde seu amado irá perceber e acolher sua paixão e, assim, poderão então ser felizes para sempre.

As armadilhas perigos dessa atitude psicológica são evidentes. Ainda que muitos heterossexuais alimentem,por diferentes motivos( incluindo aqui econômicos tão comuns no nosso país), paixões homossexuais, a realidade mostra que relações dessa  natureza tendem a  gerar grande sofrimento e muita frustração. Assimétricas por definição, raramente conduzem a um relacionamento no qual ambos se sintam igualmente nutridos e amparados. E, via de regra, repetem o mesmo final trágico ou melancólico  do filme.

No filme, Bárbara despreza(invejando) a liberdade(irresponsável)com que Sheba vive sua paixão pelo aluno adolescente .Incapaz de viver sua paixão de forma aberta e direta, lança mão de uma estratagema ardiloso e perigoso. Para ela, o fim justifica os meios e, em seu delírio, acredita ser a única a saber o que é melhor para sua amada.

Na clínica, ouço pacientes que se veem como verdadeiros salvadores do seu amado. Para eles ( em seus delírios), o amado esta aprisionado em um vida heterossexual infeliz e eles só precisam encontrar uma forma de lhe mostrar o verdadeiro caminho para a felicidade( ao seu lado, é claro).

Ninguém escolhe racionalmente o objeto de seu desejo. Movidos por misteriosas forças, quase sempre inconscientes, somo muitas vezes levados a paixões intensas, impossíveis ou até mesmo perigosas, como aquelas de que o filme trata. Nenhum homossexual esta totalmente livre de se apaixonar por um heterossexual. O problema é quando esse tipo de amor não correspondido, e naturalmente assimétrico, se torna padrão de repetição ou de obsessão, minando assim quaisquer outras possibilidades de relações homoafetivas fecundas e saudáveis.

Indivíduos presos a essa teia correm o risco de passar suas vidas destilando amargura e responsabilizando o mundo injusto por sua infelicidade crônica. Que nem faz a personagem do filme.

Download dos filmes legendados:

Download Transamérica  

Download Notas sobre um escândalo 

 
Textos do livro de Klecius Borges – DeSiguais, pode ser adquirido clicando aqui

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Ativista dos Direitos Humanos (Principalmente LGBTs ); Teólogo;Homeopata; Psicanalista, especialista em Sexualidade Humana, Filosofia, Sociologia;Blogueiro.

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