Homofobia Basta!

O Trauma da infância no “tornar-se gay”, a “promiscuidade gay” e a Homofobia.

Posted on: 26 de julho de 2011

 

A maior parte da problemática trazida a clínica gay tem como pano de fundo a homofobia internalizada. É com base nela que se manifestam uma série de sintomas – tanto no campo emocional quanto no desempenho  sexual propriemente dito -, influenciando enormemente o funcionamento psicológico do indíviduo.

Os efeito da homofobia internalizada podem ser observados na dissociação que muitos pacientes gays fazem entre seus comportamentos e práticas sexuais e sua identidade afetivo-sexual. Essa “dissonância”, que é na verdade uma forma de defesa psiquíca contra a ansiedade gerada pela própria homossexualidade [ que dentro de uma sociedade heterocentrada é vista como medíocre, doentia, “demoníaca” ], acaba por levar a um comportamento sexual sem qualquer vinculação afetiva. Tal comportamento normalmente envolve o uso excessivo de pornografia, a prática do sexo anônimo e a compulsão sexual.

Como parte dessa problemática, se observa também que muitos gays tem dificuldade de estabelecer ou manter uma intimidade amorosa associada à vida sexual. Há inclusive uma crença generalizada, mantida pelos próprios gays, de que gays não se vinculam afetivamente e são naturalmente promíscuos.

Para Coleman et al. ( apud Davies e Neal ) a origem dessa dificuldade estão em não conseguir desenvolver uma identidade positiva e integrada, o que acaba gerando alto grau de estresse psíquico. As consequências dessa situação são problemas de relacionamento interpessoal e padrões de comportamento compulsivos – que, como vimos, têm a finalidade de lidar com a ansiedade.

Outra manifestação comum da homofobia internalizada se dá nos conflitos associados ao papel de gênero masculino. A questão da masculinidade aparece tanto na “persona” ( máscara social ) mais masculina ou mais feminina quanto nas preferências pelo ativo ou passivo nas relações sexuais. A própria comunidade gay, reproduzindo a sociedade machista, valoriza os gays mais masculinos ( que não aparentam ser gays ) e hostilizam os mais femininos. Da mesma forma, os ativos, ou seja, aqueles que preferem o papel sexual associado ao homem, também são considerados superiores e tendem a ser vistos de forma menos negativa. Essa questão costuma ser agravada pelos tabus relativos ao sexo anal, encarado por muitos como sujo e antinatural. A ansiedade em torno dessas questões pode funcionar muitas vezes como catalisador de comportamentos sexuais compulsivos.

Uma das questões mais complexas da sexualidade gay é a compulsão sexual. É muito importante que o terapeuta saiba distinguir entre a atividade sexual mais frequente e variada e o padrão compulsivo. Embora os gays – em função dos efeitos da homofobia internalizada , da história de abuso sexual cultural e de estilo de vida geralmente possibilita maior liberdade sexual – sejam mais vulneráveis à compulsão sexual, esse problema também é comum em heterossexuais. A maior parte dos autores concorda que a compulsão sexual é, na verdade, um transtorno relacionado com a intimidade que tem como função reprimir memórias dolorosas e eliminar sentimentos indesejáveis. O sexo é apenas o veículos escolhido [ muitas vezes inconscientemente ] para lidar com essas feridas. E no caso dos gays ele não é só valorizada como também facilmente obtido.

[…]

Experiência de abuso sexual na infância, embora não façam parte da maioria dos gays, costumam ser um fator importante no desenvolvimento de ordem sexual e afetiva. Vários estudos indicam que crianças gays ( crianças que apresentam características de comportamento com algum grau de não conformidade com o padrão de gênero culturalmente estabelecido ) tendem a sofrer abuso sexual acima da média . Ao contrário do que se costuma afirmar, essas crianças não se tornam gays por causa do abuso; ao contrário, são abusadas porque são gays ( refiro-me aqui à orientação sexual homossexual, e não aos casos nos quais padrões de comportamento homossexual patologico podem ser desenvolvidos em decorrência da experiência traumática de abuso sexual). As experiências de abuso sexual na infância tendem a prejudicar o desenvolvimento psicossexual do indíviduo, levando a padrões afetivo-sexuais disfuncionais. Novamente o problemas não está na homossexualidade em si, mas sim na experiência traumática vivida pelo paciente gay.

Obs: Grifo e colchetes meus

Texto retirado do Livro Terapia Afirmativa de Klecius Borges

> O Livro pode ser comprado em diversas livrarias por este link: http://compare.buscape.com.br/terapia-afirmativa-uma-introducao-a-psicologia-e-a-psicoterapia-dirigida-a-gays-lesbicas-e-bissex-borges-klecius.html 

Observação importante, para quem não sabe o que é homofobia internalizada

A homofobia internalizada tal como foi definida por Meyer e Deon, (1998) consiste na canalização para o self do próprio homossexual de todas as atitudes de valores negativos recebidos pela sociedade heterosexista, levando à desvalorização desse self, resultando em conflitos internos e pouca auto-estima.

 


2 Respostas to "O Trauma da infância no “tornar-se gay”, a “promiscuidade gay” e a Homofobia."

No época de Freud, época vitoriana, em que as mulheres recebiam um papel passivo, submisso e uma sexualidade pouco valorizada, cheia de tabus e restrições, do tipo. “é feita para cozinhar cuidar do filhos e ponto” elas eram proibidas de falarem sobre seus desejos e tudo era tido como indecência, não podiam manifestar nenhum sinal que fosse em relação a sua sexualidade feminina, um radicalismo absurdo de proibições e limitações. Essas mesmas mulheres “internalizavam” um papel machista para si mesmas …bom aí vem o sintoma néh: época de histerias graves com sintomas somatofísicos acentuados. uma patologia social, criada por valores ignorantes e machistas. Nesse seu artigo vemos como o homossexual também está sendo vitima de uma patologia socialmente imposta á ele, a internalização da homofobia produz sintomas sobre ele, similarmente como foi com as mulheres da hera vitoriana. Não vemos mais aquela mesma histeria dolorosa que acometia as mulheres do tempo de Freud pois a mulher conquistou seu espaço depois de muitas lutas e mudanças sociais. Penso que logo chegue a nossa vez, homossexuais, de termos condições de vivenciar nossa sexualidade de forma harmoniosa, sem sintomas dissociativos e exageros na manifestação da sexualidade, muitos de nós já encontrou esse caminho, conseguindo unir o afeto ao desejo sexual pela pessoa amada. Mas muitos de nós ainda vivem a dor e o sintoma produzido por esta internalização da homofobia, ela ocorre cedo, logo nos primeiros momentos da descoberta de nossa constituição sexual, o fato de informarmos isso ao maior numero possível de pessoas, poderá auxiliar muitos de nós a buscar ajuda em uma terapia por exemplo. Parabéns pelo artigo, parabéns pela luta constante. Um grande abraço

Att: Jonas Fortunatti

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Ativista dos Direitos Humanos (Principalmente LGBTs ); Teólogo;Homeopata; Psicanalista, especialista em Sexualidade Humana, Filosofia, Sociologia;Blogueiro.

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