Homofobia Basta!

Transexualidade Por Ser, Não Por Fazer – Depoimento #LGBT

Posted on: 4 de julho de 2011

Traços finos, feição grácil, pele macia e voz aveludada. Pela primeira vez o espelho não reflete a realidade. A realidade percebida pelo observador. Sob a aparência feminina sabe-se masculino. Como? Numa certeza quase transcendente. Uma convicção global inabalável. Com a naturalidade com que se respira. Sou homem.

Mas o espelho, os seios, os genitais… correções a serem feitas, não para que eu seja e sim para que o “outro” me perceba. O outro é a sociedade, é o amigo, é o desconhecido, é a futura namorada, é o magistrado.

Correções para que o espelho reflita a minha realidade percebida. A realidade que só a mim compete. Para que seja belo no espelho o que é belo em mim.

Em um mundo de aparências, somos julgados pelo que aparentamos não pelo que somos. Correções para que eu seja então julgado pelo que aparento em virtude do que sou. Não para ser… E ainda que não aparentasse não deixaria de sê-lo. Pois como se sabe: “O essencial é invisível aos olhos…”

Olhem que situação…. por isso eu desprezo aqueles que dizem que Disforia de Gênero é “opção” (confundindo opção sexual com identidade de gênero) ou minimizam o sofrimento de quem a possui …. Vamos ver no que dá, porque eu sinceramente estou farto dessa palhaçada! Vocês sabem que tenho aversão a exposição, mas não posso deixar de viver por causa da disforia de gênero.

Segue abaixo e-mail que mandei para a o banco no qual eu tenho conta….

Prezados senhores,

Inicialmente deixem que eu me apresente, socialmente meu nome é Juliano T, estudante de Direito e portador de Disforia de Gênero (CID 10-F.64.0) patologia conhecida vulgarmente como transexualismo.

Submeto-me à terapêutica hormonal conforme o acompanhamento prestado pelo Ambulatório de Sexologia do Instituto de Ginecologia da UFRJ no Hospital Moncorvo Filho desta cidade.

Juridicamente meu nome é Juliana até que se profira a sentença de processo de Retificação de Prenome que corre em segredo de Justiça no Tribunal de Justiça desta Comarca onde então passarei juridicamente a ser Juliano.

Também sou correntista do Banco desde 2005 e não tenho nenhum restritivo financeiro e proventos suficientes para minhas despesas pessoais e aquisição de bens dentro de minha faixa de renda. O que me leva a concluir que somente o preconceito e a discriminação sexual possam ter impelido a financeira do banco negar-me solicitação de crédito feita em 10/08/08 sem qualquer explicação.

Solicitei pessoalmente crédito para aquisição de uma moto 0km XYBR 125 cilindradas em Concessionária da Yamaha cujo valor à vista é de R$ 6.800,00.

Devido a atipicidade do caso e no intuito de poupar-me constrangimentos desnecessários expliquei à vendedora do que se tratava deixando todos os comprovantes de praxe (comprovantes de renda, residência e documento de identidade) além de uma Declaração do Instituto de Ginecologia da UFRJ sobre a questão da Disforia de Gênero onde consta inclusive o número do processo judicial para retificação de prenome para justificar a discrepância entre a foto do documento de identidade e o nome no RG.

Por volta das 17:30 hs deste mesmo dia recebi ligação em meu celular do Banco para confirmação de meus dados pessoais. Cinco minutos depois recebi nova ligação do Banco para confirmação de dados pessoais, sendo que desta vez, o analista de crédito foi extremamente descortês e rude, ainda tentei falar que a minha voz tem timbre masculino por conta do tratamento e que os documentos comprobatórios estavam em poder da Concessionária bem como meu gerente de conta estava a par da situação (pois junto com minha documentação bancária fiz anexar a referida declaração da UFRJ) e que qualquer dúvida quanto a minha identificação poderia apresentada a ele. Tudo em vão…

O analista mal me deixou falar, desligando o telefone enquanto eu ainda falava. E o meu crédito foi negado sem maiores explicações.

Estes são os fatos.

É bem verdade que o nosso país ainda não tem o devido respeito aos direitos humanos e liberdades individuais sedimentado na sociedade como um todo. Mas nem por isso devemos abrir mão destes direitos. Neste caso específico o direito afrontado é o da dignidade da pessoa humana além do direito à intimidade e privacidade. Porque em última instância disfôricos de gênero (transexuais) também são pessoas humanas; pagam contas, compram (tentam comprar) bens, trabalham e têm seus momentos de lazer.

As diferenças existem e são elas que tornam o mundo suportável. Cabendo à nós respeitá-las. Não foi outro o entendimento do Poder Legislativo quando decidiu pela extensão da aplicação da Lei nº 7716/89 ao preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero. Não desejo que se coloquem no meu lugar, pois vocês sequer suportariam dez minutos.

Apenas sugiro um pouco mais de compreensão com situações extraordinárias que podem ser resolvidas sem maiores transtornos e constrangimentos; e exijo o devido respeito à minha dignidade, intimidade e privacidade enquanto pessoa humana como assegura a Constituição deste país. Nada além.

Finalmente: e se ao invés de disfôrico de gênero eu fosse deficiente vocal (mudo), ou auditivo (surdo)? Sem poder confirmar os dados por telefone natural que pedisse que meu pai ou outra pessoa o fizesse. Então pessoas com deficiência auditiva e vocal também não são aceitas pela financeira porque fogem ao padrão?

Mas vamos a luta…

Juliano T.

Fonte: SBRASH

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Ativista dos Direitos Humanos (Principalmente LGBTs ); Teólogo;Homeopata; Psicanalista, especialista em Sexualidade Humana, Filosofia, Sociologia;Blogueiro.

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