Homofobia Basta!

Porque tanto ódio? – Um olhar Psicanalítico sobre os preconceitos

Posted on: 4 de julho de 2011

 Por Elisabeth Roudinesco

Por que tanto ódio?

 

Em um odioso panfleto repleto de erros e atravessado por rumores, a ser publicado em 21 de abril, pela Editora Grasset e intitulado O crepúsculo de um ídolo. A fabulação freudiana, Michel Onfray , que não é historiador e ignora todos os trabalhos de Freud e da psicanálise produzidos nos últimos quarenta anos por historiadores de profissão (dezenas de escritos no mundo todo, sendo que os mais importantes foram traduzidos para o francês), se apresenta, no entanto, como o primeiro biógrafo de Freud capaz de decifrar lendas douradas há décadas proscritas. Transformando-se em fabulador descobrindo verdades ocultas que teriam sido dissimuladas pela sociedade ocidental – esta dominada pela ditadura freudiana e suas milícias – ele trata os Judeus, inventores de um monoteísmo mortífero, de precursores de regimes totalitários, Freud de tirano de todas as mulheres de sua família e estuprador sexual perverso de sua cunhada: homofóbico, falocrata, falsário, ganancioso por dinheiro e que cobrava suas sessões de análise 450 euros.

Descreve o sábio vienense como um admirador de Mussolini, cúmplice do regime hitlerista (pela sua teorização da pulsão de morte) e faz da psicanálise uma ciência fascista fundada na adequação do carrasco e da vítima. Ao mesmo tempo em que se declara proudhoniano e por vezes freudo-marxista,  e reabilita o discurso da extrema direita francesa (Debray-Ritzen e Bénesteau em particular) com quem é realmente conivente. Tais proposições vão além de um simples debate sobre Freud e a psicanálise. Isto porque de tanto inventar fatos inexistentes, e fabricar revelações onde não existem o autor desse odioso panfleto confuso e atrapalhado favorece a proliferação de rumores os mais extravagantes: foi dessa forma que a mídia já anunciou que Freud residiu em Berlim no entre-guerras, que havia sido médico de Hitler e Göring, amigo pessoal de Mussolini e um extraordinário estuprador de mulheres.

Quando se sabe que na França oito milhões de pessoas são tratadas em terapias derivadas da psicanálise, fica claro que há em um livro como esse e nas proposições do autor uma vontade de denegrir que no final das contas só pode provocar a indignação de todos que – psiquiatras, psicanalistas, psicólogos, psicoterapeutas – trazem uma ajuda indispensável a uma população tomada tanto pela miséria econômica – crianças em situação de desamparo, loucos, imigrantes, pobres – quanto pelo sofrimento psíquico amplamente evidenciado pelo conjunto desses especialistas .

Resenha do livro de Michel Onfray por Elisabeth Roudinesco.

Tradução: Lucia Valladares – abril/2010

(A propósito de um livro de Michel Onfray, mais um odioso panfleto anti-freudiano).

1- Descrição da obra

 No próximo dia 21 de abril de 2010, chega às livrarias mais um violento ataque a Freud, agora de autoria de Michel Onfray, Le crépuscule d’une idole. L’affabulation freudienne. Publicado pela Editora Grasset e dividido em 5 partes, o trabalho não possui nem fontes nem notas bibliográficas. Está repleto de erros. O autor projeta sobre o objeto odiado suas próprias obsessões – os judeus, o sexo perverso, os complôs – a ponto de fazer de Freud um duplo dele mesmo, e da psicanálise a expressão de uma autobiografia de seu fundador transformado em criminoso e fabulador. Diante desse duplo, enviado ao inferno, o autor se vê como um libertador vindo salvar o povo francês da crença em um ídolo do qual ele anuncia o crepúsculo.

Ignorando as obras consagradas a Freud dos últimos quarenta anos, Onfray se apresenta como um historiador sério, escrevendo a primeira biografia não autorizada de Freud e convencido de que só existem atualmente disponível os trabalhos de Ernest Jones e Peter Gay. O primeiro publicado entre 1953 e 1957 e, o segundo, em 1988. Ele não cita os escritos dos historiadores de Viena (Schorske, Johnston, Le Rider, etc…), nem os destinados à questão da judeidade de Freud (Yerushalmi, Yovel, Derrida, Gay, etc…), tampouco os ensaios (e eles são dezenas no mundo inteiro, sento muitos deles traduzidos para o francês) relativos a diferentes aspectos da vida de Freud: atualmente cada acontecimento da vida dele e dos seus companheiros, discípulos e dissidentes é perfeitamente conhecido. Onfray não conhece nada da vida de Breuer, Fliess, Ferenczi, Rank, Jones, Adler, Jung, Melanie Klein, Marie Bonaparte, Lou Andreas-Salomé, Anna Freud (a respeito de quem ele cita uma biografia cheia de erros e que ninguém mais lê). Nenhuma palavra sobre a questão da sexualidade feminina (de Beauvoir a Juliet Mitchell), nem sobre a história da fundação da International Psychoanalytical Association (IPA), menos ainda sobre a revisão dos grandes casos (a propósito dos quais se comete graves equívocos). 

    Quanto à obra de Freud, traduzida em 60 línguas, Onfray diz que teve contato com ela durante cinco meses (entre junho e dezembro de 2009) pela tradução da PUF, atualmente a bastante criticada pela maioria dos germanistas. Não faz nenhuma referencia ao grande debate sobre as traduções e não consultou nenhum arquivo: nem o da Library of Congress de Washington (LOc), nem o Freud Museum de Londres.  Ignora o mundo anglófono, germanófono e latino-americano, além de não conhecer nada sobre a história da psicanálise na França.

Onfray cita a obra de Henri Ellenberger,  Histoire de la découverte de l’inconscient, publicada em 1970 (em inglês  [The Discovery of the Unconscious. The history and evolution of dynamic psychiatry]) e traduzida pela primeira vez para o francês, em 1974 e reeditada em 1994 (com prefácio de Elisabeth Roudinesco). Afirma tratar-se da primeira grande revisão da história oficial de Freud, o que está errado, pois revela que desconhece o trabalho de Ola Andersson (Freud precursor de Freud. Estudos sobre a pré-historia da psicanálise (1962), publicado na França pela editora Les empêcheurs de penser en rond, 1997 [São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000] ) que é anterior ao trabalho de Ellenberger. Além disso, data a publicação do livro de Ellenberger de 1991, atrasando em vinte anos o inicio da historiografia erudita, e ao mesmo tempo assinalando que ela é ainda hoje ocultada, quando na realidade ela está em plena expansão e os arquivos da LOc, após as grandes batalhas dos anos 1990, estão se tornando públicos e classificados de acordo com as normas em vigor. Onfray também se engana sobre a data de publicação do livro de Frank Sulloway, Freud biologiste de l’esprit, publicado em inglês em 1978 [Freud biologist of the mind] e editado duas vezes em francês (Fayard, 1998, com prefácio de Michel Plon). Convencido de que não existe até hoje nenhum trabalho não hagiográfico sobre Freud, apresenta-se como o primeiro historiador a corrigir lendas douradas invalidadas há trinta anos. Aliás, ele não faz nenhuma referencia à diferença entre história devota, historia oficial, pensamento irracional, historiografia fundada em falsas lendas e rumores (corrente dita “revisionista” ou, em inglês “destructeur de Freud”) e historia erudita. De um maniqueísmo absoluto: de um lado os “bons” anti-freudianos, de outro, os “maus”,  adeptos de uma fabulação.

Ignorando os trabalhos americanos e só conhecendo Freud através do que leu em francês, Onfray também se engana sobre a data de publicação da correspondência não expurgada de Freud com Wilhelm Fliess, essencial para decifrar as modalidades de invenção da psicanálise e as hesitações e errâncias do primeiro Freud. E, no entanto, ela está disponível em inglês, alemão, espanhol  e português desde 1986. Como foi traduzida pela primeira vez em francês apenas em 2006, ou seja vinte anos mais tarde, Onfray acredita até agora havia sido ocultada.

Sem nenhuma formação na tradição universitária, não tendo a menor idéia do que é a internacionalização da pesquisa em história, Onfray ignora a realidade do trabalho historiográfico que se faz nesse domínio há decênios, mas se apóia no que ele considera como o supra sumo da pesquisa historiográfica :  Le livre noir de la psychanalyse (Les Arènes, 2005), (reunindo cerca de 40 textos). Neste, enquanto Freud é tratado de mentiroso, trapaceiro, ganancioso e incestuoso, pela corrente historiográfica revisionista americana, os psicanalistas – os franceses particularmente – são acusados de complô e contaminações diversas; uns porque teriam sido contrários à venda de seringas para doentes com AIDS – rumores inteiramente inventados – outros porque, adeptos de Françoise Dolto, morta em 1988, teriam favorecido a partir de 2000 o rebaixamento da autoridade na escola ao idealizar a “criança rei”. Quanto a Jacques Lacan, ele é comparado a um guru de seita, ao passo que o conjunto das associações psicanalíticas são ridicularizadas, acusadas de estar na origem de um verdadeiro gulag freudiano: pelo menos dois mil mortos na França. Nenhuma fonte para apoiar essa afirmação sem fundamento.

Contrariamente a seus novos amigos que conseguiram, como ele mesmo diz (Crépuscule, p. 585), convertê-lo para a verdadeira verdade – a da conspiração dos freudianos contra a sociedade ocidental -, Onfray só ataca Freud, deixando entender que mais tarde, em um outro volume, se dedicará aos herdeiros.

2- Perfil do autor em deus solar, hedonista e masturbador

Antes de analisar o conteúdo desse violento libelo antifreudiano, cabem algumas indicações permitindo compreender como Onfray acabou por se «converter» ao antifreudismo mais radical.

Fundador de uma Universidade popular na cidade de Caen, ele é conhecido por ter reunido um grande publico que acompanha seus cursos acreditando que ele está realizando um empreendimento moderno de renovação do discurso filosófico. Convencido de que a Universidade francesa e a Escola republicana são lugares de perdição, onde os professores professam aos alunos verdades oficiais ditadas por um Estado totalitário, Onfray se lançou em uma revisão da história dos saberes ditos “oficiais”. Ele se acredita libertário, de extrema esquerda, adepto de Proudhon contra Marx e se proclama defensor de um povo explorado pelo capitalismo. Igualmente durante um tempo foi próximo do NPA [Nouveau Parti Anticapitaliste, ex-Liga Comunista Revolucionária, agremiação de filiação trotskista] antes fazer campanha em favor do Front de Gauche [Frente formada por grupos de extrema esquerda], nas recentes eleições regionais.

Há anos, ele difunde amplamente uma “contra-história da filosofia”, que pretende retirar os recalcamentos sobre os “saberes” que teriam sido censurados pela República, pelo papa, pelos padres e pela religião. Igualmente, aperfeiçoou uma metodologia que se apóia no principio da prefiguração: tudo já está no todo antes mesmo da irrupção de um acontecimento.

Graças a essa metodologia, que faz um verdadeiro sucesso popular junto a um público fascinado pelo que acredita ser uma insurreição das consciências, Onfray pode afirmar que Emmanuel Kant, filósofo alemão do Iluminismo, era um precursor de Adolf Eichmann – o responsável pela «Solução final» que se acreditava kantiano (Le songe d’Eichmann, Galilée, 2008) –, que os três monoteísmos (judaísmo, cristianismo, islamismo) são neles mesmos empreendimentos genocidas, que o evangelista São João é ancestral de Hitler, que Jesus prefigura Hiroshima, e que enfim todos os mulçumanos do planeta são fascistas guiados por infames aiatolás (Traité d’athéologie, Grasset, 2005).

 Na origem desse caso sombrio de prefiguração, os judeus, fundadores do primeiro monoteísmo – ou seja, de uma religião sanguinária, centrada na pulsão de morte – seriam os responsáveis segundo Onfray por toda infelicidade do Ocidente, os verdadeiros «inventores da guerra santa» : «Porque o monoteísmo sustenta a pulsão de morte, acaricia a morte, goza da morte, é fascinado por ela  (…) Da espada sanguinária dos Judeus exterminando os canaenses  à utilização do avião comercial como bombas voadoras em Nova York, passando pelo descarregamento de cargas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, tudo é feito em nome de Deus, abençoado por ele mas sobretudo abençoado por aqueles que se reclamam dele.» (Traité d’athéologie, p. 201, 212, 228, etc…)
        A essa história de uma humanidade monoteísta (judaica, cristã, mulçumana) exclusivamente voltada para o ódio e destruição, Onfray opõe uma « ateologia », ou uma visão de mundo higienista, paradisíaca, hedonista : orquestrada por um Deus solar e pagão, inteiramente habitado pelo pulsão de vida e da qual ele, Onfray, seria o representante na terra com a missão de inculcar aos humanos a melhor maneira de gozar sexualmente do seu corpo, do corpo de seus vizinhos: pela masturbação. Ainda que ele não saiba do que fala e não cite o livro de Thomas Laqueur (Le sexe solitaire. Contribution à une histoire de la sexualité, Gallimard, 2004), Onfray se mostra decidido a fazer de seu pênis o objeto de um culto fálico e vulcânico herdado dos antigos Deuses da Grécia, os quais, enquanto pré-socráticos, seriam os precursores de Nietzsche. Ora, que Nietzsche tenha realizado um grande retorno aos pré-socráticos não faz deste um precursor daqueles. Ao longo de um ensinamento bastante midiático, Onfray consegue convencer um público amplo que os representantes desse deus pagão, celebrando as virtudes do raio, dos cometas e das tempestades, nunca fizeram a guerra com quem quer que seja e são plenamente pacifistas. Nessa Grécia dos pequenos bosques, Homero não existe, nem a guerra de Tróia, nem Ulisses, nem Aquiles, nem Zeus, nem Uranos, nem os titãs, nem a tragédia…

Onfray conta que na sua infância, foi vitima de malvados padres « salezianos » sendo que alguns eram «pedófilos» (Le crépuscule, p. 15) e que fizeram dele o que ele se tornou. Rebelde em efervescência, perseguido pelo complô edipiano que teria se abatido sobre ele, afirma que seu pai, um infeliz empregado de uma queijaria, teria sido vitima passiva de sua mãe ao longo de um drama que teve por pano de fundo o «mercado situado na Administração Regional de Argentan». Essa mãe odiada havia sido abandonada em um cesto ao nascer e desenvolveu uma repulsão pelo seu próprio filho, a ponto de bater nele e lhe pressagiar um final vida de abandono: «Sem nunca ter matado o pai (e principalmente) a mãe, nem visado uma carreira de bandido famoso, menos ainda imaginado a arte do estrangulador, eu me via muito mal sob a faca da viúva. Sim, minha mãe!» (La puissance d’exister, Grasset,  2006, apresentação do autor por ele mesmo)

Para se vingar do ódio que sua mãe lhe inspirava, decidiu atacar aquele que ele considera como responsável pelo « complô edipiano », Sigmund Freud, de quem sabe-se foi adorado pela mãe. Onfray o admirava a ponto de lê-lo desde a infância enquanto se masturbava (Philosophie Magazine, 36, fevereiro, 2010, p. 10) e mais tarde de incluí-lo em sua gloriosa história da ateologia (Traité, p. 265). Mas eis que entretempos, após sua «conversão», Onfray denuncia o «complô edipiano» promovido por Freud e que consiste, segundo ele, em odiar os pais e ser adorado pelas mães para melhor seduzi-los sexualmente: tal é, do seu ponto de vista, a essência da psicanálise, pura e simples descrição autobiografia de seu fundador. 
        Partindo daí, ele tenta, contra Freud e contra o judeu-cristianismo, reabilitar a figura maltratada do pai. Mas só pode amar os pais à condição que eles jamais sejam pais. Adepto fervoroso do celibato, Onfray não cessa de afirmar sua recusa da paternidade: «Os estéreis voluntários amam muito as crianças, inclusive mais que os reprodutores fecundos (…) Quem acha o real suficientemente desejável para iniciar seu filho ou filha no inelutável da morte, na falsidade das relações entre os homens, no interesse que conduz o mundo, na obrigação do trabalho assalariado? (…) Seria necessário chamar amor essa arte de transmitir semelhantes vilanias ao sangue do seu sangue?» (Théorie du corps amoureux (2000), LGF, 2007, p. 218-220)

3- Freud perverso sexual, a psicanálise ciência nazista

Para aperfeiçoar seu panfleto de ataque ao freudismo na seqüência lógica de sua contra história dos saberes oficiais, Onfray apresenta Freud como um monstro perverso, tendo maltratado seu pai julgado « pedófilo », abusado psiquicamente de suas três filhas (Mathilde, Sophie e Anna), e cometido adultério com sua cunhada durante quarenta anos, de 1898 até sua morte. O apartamento de Viena era, segundo ele, uma casa de prostituição e Freud um abominável Édipo : só pensava em « realmente »  dormir com sua mãe (mesmo em idade avançada), em seguida « realmente » matar seu pai (mesmo após a morte deste ocorrida em 1896) e, enfim, fabricar crianças incestuosas para melhor violentá-las.
        Foi dessa maneira que durante dez anos, Freud teria « torturado » sua filha Anna, no curso de uma analise em forma de processo inquisitorial que teria durado onze anos (entre 1918 e 1929) e ao longo do qual, a cada dia, no segredo de consultório, ele a teria estimulado a tornar-se homossexual (Le crépuscule, p. 243-245). Se é verdade que Freud analisou sua filha, o tratamento porém durou quatro anos e não onze. E quando Anna começou a se dar conta de seu interesse por mulheres, Freud, procurou orientá-la principalmente para o trabalho intelectual.  Mais tarde, quando ela passou a viver com Dorothy Burlingham e «adotou» os filhos dela, ele mostrou-se tolerante. Freud não era nem homofóbico, nem misógino, ainda que sua concepção da sexualidade feminina seja discutível e tenha sido objeto de discussão incontáveis vezes.

Pouco importa as discussões das feministas e outros pesquisadores : Onfray afirma que o grande abusador vienense não é outra coisa senão um ser desprezível, «ontologicamente homofóbico (Le crépuscule, p. 513-513). A homofobia ontológica segundo Onfray seria muito diferente da homofobia política. A primeira consistiria em fazer da homossexualidade uma perversão e a segunda seria a de «criminalizar» a homossexualidade. Essa distinção é ainda mais ridícula porque visa colocar Freud na categoria dos perversos. Ora, a verdade sobre essa história é totalmente diferente. Freud, ao contrario de muitos de seus discípulos, não considerava a homossexualidade como uma perversão e era favorável, politicamente, a uma emancipação dos homossexuais.

Uma vez mais, a tese de Onfray não tem nenhum fundamento, senão expressar a aversão que ele mesmo tem para com a homossexualidade feminina e masculina. Ao fazer de Freud um ditador falocrata possuidor de todas as mulheres – sua mãe, irmãs, cunhada, filhas e esposa –uma vez mais, ele fala dele mesmo. Não foi ele que, em diversas ocasiões anunciou, além da sua escolha pelo celibato e pela não paternidade, seu gosto filosófico pela poligamia solar, erótica, hedonista, vulcânica, pagã e antijudaico-cristã? Nada a acrescentar a não que, em se tratando de Freud, ele se transforma em inquisidor disto que, aliás, se pretende adepto.
 Cedendo a um antigo rumor inventado por Carl Gustav Jung (e reatualizado pelos revisionistas e puritanos) segundo o qual, Freud teria tido, em 1898, um caso com Minna Bernays, a irmã de sua mulher Martha, durante uma viagem a Engadine (cf. Sigmund Freud, Notre coeur tend vers le sud. Correspondance de voyage 1895-1923, Fayard, 2005, prefaciado por E. Roudinesco e  Le Nouvel Observateur, 1º fevereiro, 2007), Onfray chega a imaginar que Freud teria tido relações sexuais perversas com ela ao longo de toda a sua vida, no quarto contíguo ao seu e sob o olhar cúmplice de sua mulher Martha que muitas vezes teria inclusive assistido as cenas sexuais dos dois amantes. Pior ainda, Freud teria engravidado Minna para em seguida obrigá-la a abortar. Evidentemente que, Onfray, pouco atento às leis tanto da cronologia quanto da procriação, situa o acontecimento em 1923. Ora, nessa data, Minna tinha 58 ans e Freud 67.

E a  Onfray de acrescentar que Freud teria cedido à tentação de submeter-se a uma operação dos canais espermáticos destinados a aumentar sua potencia sexual a fim de gozar do corpo de Minna: «Naquele ano, ele afirma, Freud o cientista fez uma ligadura dos canais espermáticos sob pretexto de que esse tipo de intervenção rejuvenesce o sujeito e reaviva as potencias sexuais enfraquecidas – assim os que sustentam a versão hagiográfica do herói renunciando à sexualidade para sublimar sua libido na produção de uma obra universal, a psicanálise, deverão rever suas afirmações… Em contrapartida, para aqueles que defendem a tese de uma vida sexual ativa com a tia Minna, e a hipótese de uma viagem pela Itália por causa do aborto, as coisas parecem coerentes… Os hagiográficos afirmam inocentemente: essa ligadura previa a reincidência de câncer.» (Crépuscule, p. 247).

Convencido de que Minna pode ter ficado grávida aos 58 anos, e ignorando a história da medicina, Onfray atribui aos hagiógrafos a ocultação da verdade no que se refere à sexualidade de Freud. A realidade é totalmente diferente: em 1923, Freud efetivamente submeteu-se a uma operação de ligadura dita «operação de Steinbach». Esse endocrinólogo foi um dos primeiros a descobrir a função das células intersticiais que os hormônios masculinos secretam. Ao realizar a ligadura dos canais, ele acreditava obter uma relativa hipertrofia das células e por conseqüência um «rejuvenescimento» do sujeito. Como na época se pensava que a formação do câncer era parcialmente devida ao processo de envelhecimento, a operação de «rejuvenescimento de Steinbach» era considerada como um meio de prevenir o retorno do câncer (cf. Max Schur, La mort dans la vie de Freud, Gallimard, 1972, p. 434 [Freud. Vida e agonia: uma biografia. RJ: Imago, 1981]).

Defensor do prazer solitário e «solar», Onfray acusa Freud, não apenas de ter engravidado sua cunhada, mas de ter favorecido uma imensa repressão da masturbação (Le crépuscule, p. 497-504). O ataque é ainda mais cômico que as injurias que Freud recebeu de diversos puritanos no inicio do século XX por ter condenado as torturas infligidas às crianças para reprimir a masturbação (mão amarradas na cama, aparelhagem assustadora, excisão da meninas, ameaças diversas, socos, etc…).

Obcecado pela pedofilia, Onfray não se cansa de dar declarações à imprensa para denunciar todos aqueles que ele desconfia que possam ser cúmplices desse crime. Se responsabilizando pelas acusações grotescas contra Daniel Cohn-Bendit, e citando o famoso abaixo-assinado de 1977, assinado por numerosos intelectuais franceses favoráveis, na época, a uma revisão da lei sobre a sexualidade dos adolescentes (Sirinelli, Intellectuels et passions françaises, Fayard, 1990, p. 269-270), ele não hesitou, em seu blog de novembro de 2009, a recriminar o conjunto da intelligentsia francesa : servidores da pedofilia, ele diz («Pédophilie mon amour»). Da mesma maneira, atacou violentamente Roman Polanski e Frédéric Mitterrand: «A pedofilia circula bem na imprensa, ele escreve. Quando Bayrou relembra com razão que Cohn-Bendit acariciava o sexo das crianças e se deixava acariciar por elas, o infame é Bayrou! (…) Quando o abaixo-assinado contra a maioridade sexual reúne em1977 a fina flor dos intelectuais do momento (Derrida, Deleuze, Guattari, Althusser, Sartre, Beauvoir, Sollers, etc…..) mas também pelos atuais sarkozystas Kouchner, Bruckner, Glucksmann (…) ninguém diz nada, nem mesmo Dolto, igualmente signatária».

Se Freud é um perverso sexual, isso significa para Onfray que sua doutrina é o prolongamento de uma perversão mais grave ainda no que se relaciona com origens vergonhosas: ela seria, segundo Onfray, o produto de alguma coisa de estranho ao corpo normal e são do homem e da nação, um heterogêneo ligado a marcas precisas: a de uma raça não confessa. Seria, portanto o inverso da doutrina professada por esse deus solar e vulcânico, fonte de vida e antítese absoluta de um judeu-cristianismo fundador da guerra, da destruição e da pulsão de morte. A partir dái, Onfray faz igualmente da psicanálise o «produto de uma cultura decadente fin-de-siècle que proliferou como erva daninha» (Le crépuscule, p. 566-567). Ele retoma assim por conta própria a grande temática da extrema direita francesa que, desde Léon Daudet, sempre comparou a psicanálise a uma ciência estrangeira («boche» ou «judaica»), mortífera, concebida por um celebro degenerado e originaria de uma cidade depravada (Viena) no coração de um Império em plena desagregação.

Portanto não surpreenderia ver surgir nos seus escritos, não uma crítica da psicanálise à maneira de Adorno, Marcuse, das feministas ou dos culturalistas americanos, ou até mesmo como a de Gilles Deleuze ou Michel Foucault, mas uma acusação semelhante à dos adeptos do neopaganismo anti-judeucristão. Isto porque é exatamente nessa linha que se situa o autor de Crépuscule d’une idole , quando ao retomar a acusação de «ciência judaica» pronunciada pelos nazistas contra a psicanálise, faz dela  uma «ciência nazista» (Crépuscule, p. 566 et sq.) e de seu fundador um precursor de Hitler.

O raciocínio é simples: acusando Freud de ter teorizado a noção de pulsão de morte e de tê-lo inscrito no cerne da historia humana, Onfray chega a afirmar que, posto que os nazistas levaram a termo a mais atroz realização dessa pulsão, isso significa que Freud seria o precursor do nazismo e portanto um representante dos anti-iluministas, animado pelo «ódio de si judaico» (Crépuscule, p. 228 e 476). Mas ele teria feito pior ainda: ao publicar, em 1939, Moisés e o monoteísmo, ou seja ao fazer de Moisés um egípcio e do assassinato do pai um dos princípios da emergência das sociedades humanas, ele teria assassinado o pai fundador do judaísmo, favorecendo assim o extermínio pelos nazistas de seu próprio povo (Crépuscule, p. 226-227). Ele seria, portanto, por antecipação, um genocida.  E Onfray «prova» sua tese ao utilizar uma anedota conhecida por todos os historiadores. 
        Em 1933, Edoardo Weiss, discípulo italiano de Freud, foi a Viena e lhe apresentou uma paciente sua, que por sua vez veio acompanhada do pai, Gioacchino Forzano, autor de comédias e amigo de Mussolini. No final da consulta, o pai pediu a Freud que fizesse uma dedicatória de um de seus livros para o Duce. Em consideração a Weiss, que em seguida será forçado a emigrar, Freud consente e escolhe o texto “Por que a guerra?”, escrito em colaboração com Einstein (1932-33): «A Benito Mussolini, com a saudação respeitosa de um velho homem que reconhece na pessoa do dirigente um herói da cultura.» Mais tarde, Weiss pede a Jones que silencie sobre esse acontecimento, porém este ignora, passando inclusive a acusar Weiss de cumplicidade com Mussolini.

Sem conhecer os detalhes dessa história, Onfray conclui que Freud é um fascista (Crépuscule, p. 524-532) e “Porque a guerra ?” uma apologia do crime.  
        Quando se sabe que Freud foi um pensador das luzes sombrias e jamais adepto dos anti-iluministas, que assinala que o assassinato do pai foi um ato fundador das sociedades humanas à condição no entanto que o crime fosse sancionado pela Lei (modelo das tragédias gregas) e que era admirador tanto de Cromwell (o regicida) quanto da monarquia constitucional inglesa (capaz de «sancionar» o regicida), pode-se perguntar como Onfray pode sustentar tais extravagâncias.

Se a psicanálise , como ele afirma, é uma ciência nazista e fascista, isso significa que ela é incompatível com a democracia. Mas então por que ela só se desenvolve nos países onde foi instaurado um Estado de direito? Por que ela sempre foi banida, enquanto tal, pelos regimes totalitários ou teocráticos, mesmo quando seus clínicos colaboraram com tais regimes ? Onfray não se coloca a questão e se contenta em afirmar que se ela obteve sucesso, foi porque Freud organizou «milícias» para defendê-la, transformando-a assim em uma religião fanática, favorecendo guerras e carnificinas nas guerras, prefigurando Auschwitz, Hiroshima e as guerras coloniais. Por conseqüência, deve sua sobrevida ao fato de colocar uma adequação entre torturador e vitima.

Recusando o próprio principio da história das ciências, segundo o qual nenhuma norma deve ser essencializada em relação a uma patologia – posto que os fenômenos patológicos são sempre variações quantitativas de fenômenos normais –, Onfray retorna a uma visão maniqueísta da relação entre o normal e o patológico. Como sempre, ele pensa, segundo o eixo do bem e do mal: de um lado o paraíso da norma (os adeptos do deus solar, pacifistas e hedonistas), de outro o inferno da patologia (loucos, malvados, perversos, monstros, cristão, judeus, nazistas, mulçumanos). Tão claramente que chega a afirmar que a psicanálise, enquanto ciência nazista, não é capaz – como o próprio Freud – de distinguir o torturador da vitima, posto que, para ela, «tudo se equivale» : o doente e o homem normal, o louco e o psiquiatra, o pedófilo e o bom pai, etc… E, a propósito do extermínio das quatro irmãs de Freud pelos nazistas, ele conclui  «que não se pode compreender o problema da Solução final que abrangeu a família Freud. De que maneira captar intelectualmente, ele diz, o que psiquicamente distingue Adolfine, morta de fome em Theresienstadt, de suas três outras irmãs desaparecidas nos fornos crematórios em 1942, em Auschwitz e Rudolf Höss, posto que nada as diferencia psiquicamente senão alguns sinais e apenas visíveis mas que contam tão pouco que Freud jamais teorizou esse distanciamento mínimo, no entanto tão grande?(Crépuscule, p. 566).
Notemos de passagem que Onfray se engana de campo: Rosa foi exterminada em Treblinka e Mitzi e Paula em Maly Trostinec. Se a «Solução final» que atingiu a família Freud, não foi certamente no face a face sem a «distinção psíquica» imaginada por Onfray entre o Comandante do campo d’Auschwitz (Höss) e as quatro irmãs do fundador da psicanálise, acusado de ter eliminado, por antecipação, toda e qualquer diferença entre o exterminador e essas vitimas.
        «Que o ódio seja a outra face do amor, escreve Onfray falando de Freud, me permitam duvidar, primeiro porque não tenho ódio da psicanálise (…)» E acrescenta: «Todo ódio de uma vitima judia pelo seu torturador nazista me parece estar longe de significar nela um outro nome do amor ! Faz-se necessário acabar com esse tipo de pseudo-argumento freudiano que o nada é apenas uma das modalidades do tudo, que o branco é uma das modalidades do negro, que a crítica (aberta) de Freud é uma das modalidades (inconsciente) do amor de Freud.» (Lire, março 2010, p.35)

Tomado pela renegação de seu ódio, Onfray não para, como se pode notar, de atribuir ao fundador da psicanálise suas próprias obsessões. É Onfray e não Freud que se permite afirmar que o ódio de uma vitima judia pelo seu torturador nazista é o outro nome do amor. E é da sua imaginação que saiu a cena macabra desse face a face entre Rudolf Höss e as quatro irmãs de Freud.  
         Posto que a psicanálise é o outro nome de uma ciência nazista inventada por um Judeu enraivecido e perverso, é possível compreender porque Onfray se lança, no final do seu livro, na reabilitação sistemática das teses «paganistas» da extrema direita francesa com as quais entretém uma forte relação de conivência. 
        Assim ele faz o elogio de La scholastique freudienne (Fayard, 1972), obra de Pierre Debray-Ritzen, pediatra e fundador da nova direita, que não hesitou, há quarenta anos, em condenar tanto o divorcio quanto o aborto, como a religião judaico-cristã, hostil segundo ele, à eclosão de uma verdadeira ciência materialista. De onde sua reivindicação de um ateísmo furioso fundado no culto ao paganismo: «No final de sua vida, escreve Onfray, esse tio de Régis Debray que mesmo sem poder (sic), porém animando um programa da Radio Courtoisie, uma mídia claramente à direita da direita (…) Como entender a justeza de bons argumentos críticos em um mundo onde o essencial da classe intelectual comunga menos na esquerda que no seu catecismo?»

Não contente em criticar a esquerda francesa, da qual ele pretende fazer parte, Onfray vangloria os méritos de uma outra obra, originária da mesma tradição, Mensonges freudiens. Histoire d’une désinformation séculaire, publicada na Bélgica por Jacques Bénesteau (Mardaga, 2002), prefaciada por um simpatizante do  Front National, apoiado pelo Club de l’Horloge e na qual se pode ler (p.190-191) que não existia anti-semitismo em Viena durante o entre-guerras posto que nessa época numerosos judeus ocupavam postos importantes em todas as esferas da sociedade civil: «Nessa obra, escreve Onfray, Bénesteau critica a utilização que Freud faz do anti-semitismo para explicar seu distanciamento de seus pares, sua ausência de reconhecimento pela universidade, a lentidão de seu sucesso. Como demonstração, ele explica que em Viena nessa época muitos judeus ocupavam postos importantes na justiça, na política, na editoração, mas isso lhe possibilitou ficar rotulado no campo do «anti-semitismo oculto» por Elisabeth Roudinesco («Le club de l’horloge et la psychanalyse: chronique d’un antisémitisme masqué», Les temps modernes, 627, abril-maio-junho 2004) – oculto, de outra forma dita invisível ainda que presente e real  (…) Ora, a leitura desse catatau não contem nenhuma observação anti-semita (sic), não se encontra nele nenhuma posição que indicaria a preferência política de seu autor.» (Crépuscule, p. 596).

Ao término desse raivoso requisitório, Michel Onfray  subscreve sua tese segundo a qual Freud – precursor do nazismo, defensor do fascismo, responsável pelo extermínio de suas irmãs, adepto de uma sexualidade perversa, e de uma concepção pervertida das relações entre a norma e a patologia – teria inventado perseguições anti-semitas que de forma alguma existiam em Viena, maneira de ver por todos os cantos e em todas as circunstancias – na mais pura tradição de uma ideologia do complô francesa (de Augustin Barruel a Edouard Drumont) – a mão, o olho e o nariz de Freud.

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Ativista dos Direitos Humanos (Principalmente LGBTs ); Teólogo;Homeopata; Psicanalista, especialista em Sexualidade Humana, Filosofia, Sociologia;Blogueiro.

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