Homofobia Basta!

C.S Lewis, mais do que religião! Filosofia, educação, espiritualidade, humanização

Posted on: 11 de junho de 2011

Vivendo e Aprendendo com C.S. Lewis

I. VIDA E OBRA DE C. S. LEWIS

Nascido em Belfast, Irlanda, C. S. Lewis (1897-1963) é considerado um dos maiores pensadores, escritores e apologetas cristãos do século XX, com grande capacidade de projeção para o futuro. Sua vastíssima obra, mais conhecida no meio cristão pelos seus livros teológicos, também ficou famosa por outro gênero, o do romance ou ficção. O sucesso imediato de Cartas de um Diabo a seu Aprendiz foi reconhecido pela celebrada revista Time. Lewis também ficou famoso por sua ficção científica (da sua trilogia espacial, Longe do Planeta Silencioso e Perelandra já estão traduzidos para o português) e pelas histórias tão preciosas para o público infantil (e também para os adultos) narradas nas Crônicas de Nárnia.[1]
Mas a melhor idéia que se pode ter da história desse catedrático e crítico literário de Oxford (Magdalene College, 1925-1954) e Cambridge (como professor de literatura inglesa medieval e renascentista) pode ser obtida da leitura de sua autobiografia Surprised by Joy,[2] recentemente traduzida e lançada, com muito sucesso, no mercado nacional. Esse livro explica a total coerência do autor, em meio à grande variedade de gêneros literários utilizados, sendo os princípios fundamentais da doutrina cristã também sintetizados nas suas quatro principais obras apologéticas: Cristianismo Puro e SimplesO Problema do SofrimentoMilagres O Grande Abismo. [3]

As obras de Lewis são constantemente reeditadas no exterior, [4] inspirando muitos estudiosos a elaborar compilações, revisões, estudos e palestras a respeito desse autor e de seu pensamento. Atualmente existe até uma lista de discussão na Internet em torno de suas idéias, além de sociedades fundadas a partir de uma visão cristã do mundo inspirada por ele. Há ainda um filme cinematográfico de Richard Attenborough, Shadowlands (“Terra das Sombras”), em sua homenagem, que pode ser encontrado em videotecas e é freqüentemente visto na programação da TV por assinatura.

II. CONTRIBUIÇÃO PARA A EDUCAÇÃO CONTEMPORÂNEA


Para se ter uma noção do potencial de projeção das idéias desse autor para a educação do século XXI (e particularmente para a educação cristã), é preciso mencionar que, nos Estados Unidos, por exemplo, as Crônicas de Nárnia foram recentemente recomendadas no currículo das escolas e universidades de alguns estados, como leitura obrigatória em diversos cursos oferecidos por reconhecidas instituições de ensino, despertando o interesse de estudantes e intelectuais de todos os níveis e áreas. A ampla popularidade conquistada pelo autor, através de educadores e da grande diversidade de sua obra, é um indício da importância da sua mensagem para o campo educacional.

A sua autobiografia, que teve sucesso quase que imediato no mercado brasileiro, confessional ou não, revela a ênfase dada pelo autor à educação. Embora a sua experiência escolar não tivesse sido das melhores (ou quem sabe precisamente por isso), Lewis levou até o fim o seu projeto pedagógico cristão de resgate do sentido que pode haver nas escolas, e que pode ser alcançado através da literatura e, particularmente, dos contos-de-fada, como explica um dos especialistas nas idéias do autor:

…o sentido está intimamente relacionado com o papel da imaginação e com o fato de que todo o universo é uma criação dependente de Deus. Costumamos ver a razão como o veículo da verdade, e a imaginação, do sentido. A razão e a imaginação têm, ambos, a sua própria autonomia … A ficção é, para Lewis, a construção do sentido. Ela reflete a criatividade maior de Deus, quando deu origem ao seu universo e o relacionou a nós mesmos. O sentido é o cerne das coisas e dos fatos. [5]

Nos capítulos a seguir procuraremos explicitar melhor os princípios acima sintetizados, aplicando-os à Educação Cristã.

III. PRINCÍPIOS BÁSICOS DA EDUCAÇÃO CRISTÃ DE C. S. LEWIS

A. Apre(e)nder pelo sofrimento
Se considerarmos a vastidão das obras de Lewis, perguntar-nos-emos o que o teria impelido a escrever tantos livros (sem falar das milhares de cartas que escrevia a seus leitores) e de forma tão diversificada! E como poderíamos tornar acessível a sua contribuição ao educador brasileiro, no limiar de um novo século? Para responder em parte a essa questão, devemos considerar a história de vida do autor, marcada pela dor desde menino, com a morte de sua mãe, o que deu inicio à sua insistente e contínua busca de “alegria” (curiosamente também o nome de sua futura esposa, Joy). Assim, por exemplo, em O Problema do Sofrimento, Lewis aborda diretamente a questão clássica que o mundo secular levanta contra o cristianismo: “Se Deus existe, como pode haver tanta injustiça, fome e miséria no mundo?”

Não há dúvida de que a vida muitas vezes é cruel e, se quisermos ser realistas, teremos que contar com obstáculos constantes, muitas vezes dolorosos, que nos trazem de volta à vida concreta, destruindo nossas fantasias a respeito de um mundo idealizado e abstrato, como se vê nesse exemplo, citado por Lewis:

Móveis feitos de sonho são o único tipo em que nunca tropeçamos ou esbarramos com o joelho. Nós todos conhecemos um casamento feliz. Mas como a esposa é diferente daquela donzela imaginária dos sonhos da nossa adolescência! Tão pouco adaptada a todos os nossos desejos extravagantes e por esta mesma razão (entre outras) tão incomparavelmente melhor. [6]

O próprio Deus, que é um ser real e concreto, escolheu manifestar-se ao homem em forma material e concreta, apesar de ser igualmente capaz de usar um sonho para nos comunicar algo. Assim, para os cristãos, uma das primeiras lições a serem aprendidas é que o ser humano não pode viver de sonhos e devemos aprender a lidar com as nossas limitações, que muitas vezes implicam em dor e sofrimento:
É lógico que fomos instruídos em como lidar com o sofrimento — oferecendo-o a Deus em Cristo como mui singela, modesta mesmo, participação no sofrimento de Cristo; por outro lado, como é duro praticá-lo, não é mesmo? [7]

Devido a essa dureza da vida é que autores como Kreeft procuram ajudar-nos a enxergar o outro lado do sofrimento, já quase esquecido pela maioria dos seres humanos. Isso pode vir a tornar-se uma excelente opor

tunidade para aprender, como ele expressa no seguinte trecho de uma de suas primorosas obras, na qual busca uma interação com o leitor:
Leitor: Então, prazer sem sofrimento é possível para Deus. Por que não nos é possível?
Autor: Boa pergunta.
Leitor: Você tem uma boa resposta?
Autor: Acho que sim. Mesmo no Jardim do Éden, antes que houvesse pecado, morte e sofrimento, estávamos sujeitos ao tempo, tínhamos de crescer, de aprender. Mas aquilo era um prazer. Depois que pecamos, aprender tornou-se doloroso, porque aprender significa submeter a mente à realidade. [8]

A missão prioritária do educador, portanto, é a de “resgate” (por mais desgastado que o termo possa estar) da realidade, “doa a quem doer,” da forma mais “didática” possível, abrindo portas que permitam enfocá-la e interpretá-la mais adequadamente. A realidade da “dureza da vida” deve ser levada em conta, certamente. Mas a vida não se limita a isso. Como observa Lewis, devemos ajudar o educando a superar esse nível da desilusão e animá-lo para uma nova aventura em busca do sentido mais profundo das coisas.

De acordo com Kreeft, o sofrimento pode, nesse sentido, adquirir uma feição totalmente nova para nós:

O outro significado do mistério — positivo — é o encontrado em Jó. Deus tem seus motivos para deixar que coisas ruins aconteçam a pessoas boas. Mas ele não diz isso a Jó, que não consegue descobrir nada. Aqui, o obscuro é subjetivo, não objetivo. Aqui, nossas mentes estão no escuro, mas Deus é a luz… No mistério das Escrituras, a realidade é a luz e nós estamos no escuro. De fato, estamos no escuro precisamente porque realidade é luz, muita luz. Assim como Agostinho e Tomás de Aquino gostavam de repetir, somos como morcegos ou corujas: enxergamos bem as sombras, mas não o sol. Pelo excesso de luz, o sol nos cega. [9]

Hoje, mais do que nunca, é necessário lembrar aos que se queixam da dureza da vida que as coisas não são obscuras por si mesmas, mas porque, de fato, perderam algo e sofrem as conseqüências dessa falta. E, como nós mesmos temos essa carência, somos vulneráveis às preocupações cotidianas. De acordo com as cartas de Lewis a uma amiga americana, um dos maiores desafios é aprender a viver as preocupações do dia, sem transferi-las do passado ou do futuro:

Suponho que viver a vida a cada dia (…) é precisamente o que nós temos que aprender — mesmo quando o velho Adão em mim às vezes alega que, se Deus quisesse me fazer viver como os lírios do campo, por que não me deu a mesma dose de nervos e imaginação que eles! Ou será esse precisamente o ponto, o propósito exato deste paradoxo divino e audacioso chamado ser humano — fazer, dotado de razão, tudo aquilo que outros seres fazem sem ela? [10]

Então, para aprendermos a enfrentar o desafio de viver a vida, temos a necessidade de compreendê-la, de apreender a sua lógica interna, sua ratio (a tradução latina de logos) ou razão de ser mais profunda, “aplicando corretamente a inteligência” a ela (que é um dos conceitos de “estudar” no Dicionário Aurélio). A razão, longe de ser um empecilho à fé, pode vir a se tornar um grande instrumento para o homem perceber o lado bom que há nas coisas e assim viver de modo menos depressivo, desesperançoso e auto-depreciativo do que vem vivendo neste final de século. E o grande desafio do educador do presente e do futuro é o de ponderar todas essas coisas e descobrir meios criativos para representar o seu sentido mais profundo de forma perceptível ao educando, transformando a sala-de-aula numa aula viva, e a qualidade do ensino em qualidade de vida.

B. Apre(e)nder pela razão
Uma das melhores formas de lidar com as coisas é explaná-las ou explicá-las, ou seja, tirar as suas plicas (prega, dobra, vinco, em latim), como se aplaina um papel todo amarrotado (daí também derivam-se complicar, replicar, aplicar, duplicar, etc.), exprimindo-as por meio da linguagem. Essa é uma das razões pelas quais Lewis escrevia tanto: para, aplicando o método da simplicidade, clareza e gratidão (que é o estilo distintivo dos autores “clássicos” da filosofia cristã como George MacDonald, Tolkien, Chesterton, etc.) traduzir a experiência viva em literatura e, assim, representar as coisas como elas são, que é o primeiro passo para aprender a lidar com elas. Dessa forma, Lewis também realiza o sentido profundo do imperativo de Paulo de “considerar todas as coisas e reter o que é bom” (ver 1 Ts 5.21).

Em The Allegory of Love, [11] Lewis denuncia o mau uso que se pode fazer da mente e da imaginação de que ela se vale para representar a realidade. É interessante notar, a partir da literatura medieval e renascentista, os extremos em que cai o homem quando busca a felicidade onde ela não pode ser encontrada. Um desses extremos pode ser chamado de simbolismo, que é uma espécie de dualismo reducionista que exalta o símbolo da mulher amada como uma divindade capaz de eliminar todo tipo de mal e de substituir a própria realidade.

No capítulo 2 desse livro, Lewis explica que o simbolismo ou sacramentalismo é a tentativa de interpretar ou enxergar um modelo visível por detrás do que é invisível. Trata-se de uma espécie de “ocultismo” ou vontade de desvendar tudo o que está oculto atrás das coisas, como podemos observar no seguinte exemplo da literatura: “Todo o transitório é apenas uma metáfora” (Goethe).

Por outro lado, há os que, quando percebem que embaixo da casca da cebola podemos encontrar apenas outra casca de cebola, passam a duvidar até mesmo do conceito de cebola, recaindo no irracionalismo, que nega até o eterno: “Todo o eterno é apenas uma metáfora” (Nietzsche).

Acontece que o invisível não pode ser interpretado em nada que seja visível. Na verdade, as coisas materiais é que são símbolos ou imagens de uma realidade mais concreta, que não deixamos de enxergar porque se escondem, mas porque vão além da nossa capacidade de visão. Por isso é que toda tentativa de interpretação humana das imagens sempre continuará sendo uma tentativa, e toda linguagem humana, uma metáfora. O problema, então, não está nas coisas que se ocultam, mas no olho do ser humano, que não as vê, e na sua capacidade de expressão imperfeita. E isso não muda em nada o fato de que a cebola é uma cebola.

O verdadeiro sabor do texto medieval não é nada simbolista (como grande parte dos textos renascentistas, por exemplo) nesse ponto:
Tipicamente o homem medieval não era um sonhador ou aventureiro espiritual; ele era um organizador, um codificador, um ser sistemático. Seu ideal poderia ser resumido com nada mais do que a velha e familiar máxima: “Um lugar para cada coisa e cada coisa no seu (devido) lugar.”[12]

O homem moderno, ao contrário, é capaz de se perder em meio a infinitas redes de significados éticos e sociais metafóricos. É certo que o homem medieval não tinha tanta ciência, mas tinha muito maior transcendência, a partir da astronomia antiga de um Ptolomeu e, principalmente, de um Aristóteles, com seu pressuposto de que qualquer movimento ou espaço só pode existir se partir de um Primum Mobile ou Motor Imóvel, o primeiro impulso, a força de ignição do Universo. Antes mesmo de Newton, os antigos já discutiam a questão einsteiniana do “ovo de colombo,” que, em termos de Newton, encontra-se na 2ª lei do movimento: “Todo corpo permanece em seu estado de repouso ou Movimento Uniforme em linha reta, a menos que seja obrigado a mudar seu estado por forças impressas nele.”[13]

Segundo Lewis, para além do homem antigo e do renascentista, quando o homem medieval olha para o céu estrelado depois de uma festa, não imagina as camadas ou misturas de gases que poderiam estar separando a terra da lua; ele não vê um grande e silencioso vazio, mas um mundo invisível repleto de almas.

O homem medieval vê um Mundo para além dos muros da catedral, do castelo ou da cidadela, que também chamamos de céu (heavens). Ele vive, por assim dizer, como quem está do lado de fora dos muros da grande cidadela.
Do lado de fora do muro — é este o ponto. Voltando por um pouco à experiência que eu mencionava no início, de olhar para as estrelas após uma ópera ou festa:

Todo o contraste entre a experiência medieval e a nossa própria só aparece agora. Pois, o que quer que sintamos, certamente sentimos que estamos olhando para fora; para fora de algum lugar quente e iluminado e para uma desolação escura, fria e indiferente; para fora de uma casa, em direção ao mar escuro e solitário. Mas o homem medieval sentia que estava olhando para dentro. Aqui é o lado de fora. A órbita da lua é a parede da cidade. A noite abre as portas por alguns instantes e nós pegamos alguns lances da pompa que está ocorrendo do lado de dentro; ficamos só olhando, como animais ficam de olho no fogo daquele acampamento em que não podem entrar, como os bárbaros ficam de olho naquela cidade…[14]

A título de contraste, entre outras obras renascentistas (de Spencer e de Milton, no qual se especializou), Lewis destaca a grande obra de Dante sob três aspectos: o significado “metafísico” do sorriso, o imaginário da Divina Comédia e a apreciação de alguns epígonos, corretores de certos equívocos por ele cometidos.

O sentido medieval é, novamente, o mais fácil de ser reconhecido:

É fácil reconhecer em que sentido os sorrisos de Dante eram “metafísicos.” A relação entre estes dois elementos é real, ontológica, inteligível e o material não precisa ser, em si mesmo, belo; pode até vir a ser grotesco – como, por exemplo, quando o tempo é representado por uma árvore que cresce para baixo em um vaso que representa o Primum Mobile (Paradiso, XXVII, 118). [15]

Em sua detalhada análise das imagens usadas por Dante nesta obra, não é complicado reconhecer o predomínio dos frutos do jardim (garden) em relação às paisagens (landscape):

Talvez esta seja uma característica da Idade Média antes de ser de Dante. Os poetas medievais interessam-se por árvores, flores, feras, pássaros e rios e não muito freqüentemente, penso eu, por paisagens. E quando alguns se mostram interessados, são geralmente de origem alemã. [16]

E, de fato, as imagens usadas na Divina Comédia, por exemplo, são de grande concretude, luminosidade, movimento ou peso, o que sugere um estilo medieval extremamente concreto e metafórico, ao invés do romântico, intrínseco a autores renascentistas. [17]

Para Lewis, os símbolos são referenciais indicadores de uma realidade muito mais concreta e maravilhosa do que eles podem ser — signos não valem nada por si mesmos (o que não tira sua importância e utilidade). Por isso é que ele “joga” tanto com as imagens nas Crônicas de Nárnia, fazendo uma verdadeira “miscelânea” de personagens mitológicos, lendários, realistas, etc.

Ao contrário dos que simplesmente descartam toda imaginação, exaltando uma espécie de literatura dos “fatos,” insossa e enfadonha, Lewis pretende mostrar quão ridículo é o tipo de inversão da realidade e, conseqüentemente, dos valores que o homem cultiva, exaltando os meios em lugar dos fins (que são, na verdade, a real fonte de inspiração dos símbolos).

Como ele comenta no prefácio (infelizmente não incluído na edição brasileira) das Cartas do Diabo ao seu Aprendiz, a tática do diabo é precisamente provocar-nos com suas acrobacias, ou a temê-lo ou a desprezá-lo, para desviar-nos do Ser onipotente:

Há dois erros acerca dos demônios, nos quais nossa espécie pode cair. Um é não acreditar em sua existência. O outro é acreditar e nutrir um interesse excessivo e doentio por eles. Os próprios diabos ficam igualmente satisfeitos com ambos os erros e saúdam o materialista ou o mágico, com o mesmo deleite. [18]

A leitura da primeira carta desse fascinante livro já basta para compreendermos a diabólica jogada da inversão dos valores (que nos deixa estarrecidos diante de atrocidades cometidas por crianças e adolescentes, nas escolas de hoje): convencer o “paciente” de que as coisas boas não são, na verdade, tão boas assim e as ruins não são totalmente ruins ou já foram ruins um dia, mas hoje é diferente… Dessa forma, instauram-se dualismos que procuram substituir ou confundir coisas boas e ruins. O relativo passa a ser posto como absoluto (recaindo num falso “moralismo”), enquanto que o absoluto é relativizado. Veja como o diabo velho Screwtape [19] em pessoa, das Cartas do Diabo a seu Aprendiz, procura explicar ao seu “ingênuo” aprendiz essa manobra:

Parece que supões que a argumentação é a maneira de mantê-lo longe das garras do Inimigo. Isto poderia ser assim se ele vivesse há alguns séculos. Nesta época, os humanos ainda sabiam muito bem quando uma coisa era comprovada e quando não era; e se era comprovada, acreditavam nela. Eles ainda relacionavam o pensar com o fazer, e estavam preparados para alterar seu modo de vida como resultado de uma sucessão de pensamentos. Mas, com a imprensa semanal e outras armas do gênero, conseguimos alterar isto em grande medida. Teu homem foi acostumado, desde garoto, a ter uma dezena de filosofias incompatíveis dançando em sua cabeça. Ele não pensa em doutrinas como prioritariamente “verdadeiras” ou “falsas,” mas como “acadêmicas” ou “práticas”, “superadas” ou “contemporâneas”, “convencionais” ou “desumanas.” Jargão, não argumento, é o teu melhor aliado em mantê-lo longe da Igreja. [20]

Stott nos mostra como esta tática diabólica de evitar toda argumentação lógica se traduz em algumas igrejas:

O espírito do anti-intelectualismo é corrente hoje em dia. No mundo moderno multiplicam-se os pragmatistas, para os quais a primeira pergunta acerca de qualquer idéia não é: “É verdade?,” mas sim: “Será que funciona?” Os jovens têm a tendência de ser ativistas, dedicados na defesa de uma causa, todavia nem sempre verificam com cuidado se sua causa é um fim digno de sua dedicação, ou se o modo como procedem é o melhor meio para alcançá-lo… Este mesmo espectro de anti-intelectualismo surge freqüentemente para perturbar a Igreja Cristã. Considera a teologia com desprazer e desconfiança. [21]

A prática anti-intelectualista de muitas igrejas de hoje receberia certamente, assim, muitos elogios da parte do monstruosamente “racionalista,” mas ao mesmo tempo irracional, personagem de Lewis. Apesar dos medos e receios que isso possa levantar, é fundamental e urgente resgatarmos as práticas do debate saudável e livre de idéias e a argumentação dentro de algumas comunidades cristãs, pois é isso precisamente que o diabo mais teme, já que sabe muito bem que não tem razão alguma. As coisas estão completa e radicalmente separadas de Deus, desde a queda, mas não há nada na criação que seja essencialmente mau, pelo simples fato de o mal não possuir a essência ou a lógica (ratio) interna das coisas criadas por Deus, que foram cuidadosamente pensadas e projetadas por ele através do Logos (Cristo). A natureza do mal é outra. Por isso é que o castor de O Leão, a Feiticeira e o Guarda Roupa insiste em explicar às crianças que a natureza da feiticeira não é humana, apesar das aparências que mantém. Graças a Deus, o mal é impotente para destruir o reflexo do Criador nas coisas. Por isso é que Deus, de certa forma, é ainda mais “assustador” do que o diabo.

A partir da visão equilibrada de Lewis e autores correlatos, é preciso considerar que o extremo oposto do racionalismo, o anti-intelectualismo (monstruosidade não menos nefasta do que o racionalismo), tem tido livre acesso às salas-de-aula de certas comunidades, como tem sido constatado por alguns educadores cristãos e equipes sérias, preocupadas e empenhadas em garantir o nível de ensino das escolas dominicais na atualidade e para o futuro. [22] Pois, quando ocorre de simplesmente ignorarmos a necessidade humana de compreender as coisas através da razão, considerando “suspeito” todo e qualquer questionamento ou argumentação nos encontros dominicais, recaímos no maniqueísmo, correndo um sério risco de nos tornarmos “presas fáceis” de qualquer “vento de doutrina.” A melhor maneira de evitarmos esse tipo de perigo é aprender a empregar a mente da forma correta, nem que, para isso, tenhamos que quebrar certos paradigmas há muito assentados.

É precisamente no sentido de manter ilesos os paradigmas estéreis, aparentemente “bem comportados,” que evitam a renovação ou reforma das idéias anacrônicas nos meios cristãos, que o diabo velho Screwtape procura instruir o seu aprendiz a sempre manter seu paciente humano longe de debates mais sérios. E explica por que:

O problema com a argumentação é que ela leva toda a batalha para o campo do Inimigo. Ele também pode argumentar; enquanto que no campo da propaganda realmente prática, do tipo que estou sugerindo, ele tem se mostrado há séculos muito inferior a Nosso Pai Cá Embaixo. Pelo próprio fato de argumentar, tu despertas a razão do paciente; e uma vez desperta, quem pode prever o resultado? Mesmo se uma determinada série de pensamentos possa ser desvirtuada para terminar nos favorecendo, tu perceberás que tens reforçado no teu paciente o hábito fatal de prestar atenção a questões universais e afastado sua atenção do fluxo das experiências imediatas dos sentidos. Tua obrigação é fixar sua atenção no fluxo. [23]

Uma das estratégia prediletas do diabo é, assim, desviar a atenção do paciente das coisas essenciais e evitar que ele procure compreendê-las; não deixá-lo refletir sobre as coisas como realmente são, fazendo-o prestar atenção somente nas manifestações externas ou na forma como ele mesmo as percebe subjetivamente. A percepção da realidade objetiva ou concreta das coisas é, em suma, o grande “perigo” do qual o diabo foge a todo custo (pois é precisamente esta experiência concreta, totalmente humana e existencial que Deus e os homens têm em comum, e que pode, de repente, aproximá-los):

Ensine-o a chamar-lhe “vida real” e não o deixe perguntar o que se quer dizer com “real”… Tu não percebes o quanto são presos pela pressão da experiência comum… Uma vez tive um paciente, um bom ateísta, que costumava ler no Museu Britânico. Um dia, enquanto lia, vi um encadeamento de pensamentos em sua mente começando a ir no caminho errado. O Inimigo, é claro, estava no seu calcanhar num instante. Antes de perceber o que sucedia, vi meus vinte anos de trabalho começarem a ruir. Se tivesse perdido o sangue-frio e começado uma defesa por meio de argumentação, estaria perdido. Mas não fui idiota. Ataquei imediatamente na parte do homem que estava sob meu maior controle e sugeri que já era tempo de comer algo. O Inimigo presumivelmente fez a contra-sugestão (tu sabes que nunca se consegue escutar tudo o que ele diz a eles?) de que isto era mais importante do que um lanche. Pelo menos acho que foi isto que ele sugeriu, pois quando eu disse: “Bem, na verdade algo demasiadamente importante para tratar no final de uma manhã,” o paciente animou-se consideravelmente; e quando acrescentei: “muito melhor voltar depois do lanche e abordar o tema com a mente descansada,” ele já estava a meio caminho da porta. Assim que chegou à rua, a batalha estava ganha. Mostrei-lhe um garoto gritando as manchetes do jornal do dia… e, antes que ele chegasse ao fim dos degraus, eu lhe havia fixado numa convicção inalterável de que, sejam quais forem as idéias esquisitas que possam vir à mente de uma pessoa quando está sozinha com seus livros, uma saudável dose de “vida real” (…) é o bastante para mostrar que todo “aquele tipo de coisa” simplesmente não poderia ser verdade… Hoje ele está salvo na casa de Nosso Pai. [24]

Essa mesma lógica do desvio e do engano, da substituição do real por algo aparentemente mais importante, é empregada no último trecho da carta, que é quase um tributo a Whitehead, inventor do sábio provérbio: às vezes não se enxerga o bosque, de tantas árvores:

Graças a passos que pusemos em funcionamento há séculos, eles acham quase impossível acreditar no não-familiar, enquanto que o familiar está diante dos olhos. Insista sobre o caráter comum das coisas com ele. Acima de tudo, não tente usar a ciência (quero dizer, as autênticas ciências) como uma defesa contra o cristianismo. Elas certamente o encorajarão a pensar acerca de realidades que ele não pode tocar nem ver. Tem havido casos tristes entre os físicos modernos. Se tiver de dedicar-se superficialmente à ciência, mantenha-o ocupado com economia e sociologia; não o deixe afastar-se daquela inestimável “vida real.” Mas o melhor de tudo é não deixá-lo ler sobre ciências, mas sim dar-lhe uma idéia geral de que conhece tudo, e que tudo que captou em conversas e leituras casuais é “resultado da moderna investigação.” Lembra que tu estás aí para confundi-lo. Pela maneira que alguns de teus jovens demônios falam, suporíamos que nosso trabalho é ensinar! Teu afetuoso tio… [25]

C. Apre(e)nder contemplativo
Para os clássicos da literatura, “ver a vida como ela é” não significa olhá-la com ceticismo, como para algum corpo morto, mas olhá-la com admiração (que é um dos sentidos da paixão), ou seja, contemplar o reflexo do Criador, dirigindo o olhar (mirar no espanhol) do leitor para o que vai “além” dos fatos nus e crus.

Apesar de defensor da “lógica das coisas” e da argumentação, é preciso deixar claro que Lewis não é um racionalista que rejeita qualquer tipo de contemplação ou conhecimento pela fé. Pelo contrário, todo o seu esforço concentrou-se em mostrar aos racionalistas a importância da abertura para a totalidade do real, que muitas vezes não é tão “lógica” quanto gostaríamos, exigindo mais fé do que notamos ou admitimos, como comentam Odero & Odero, parafraseando Chesterton:

Segundo Chesterton, a fonte de erros mais freqüente do mundo está no fato de que as coisas são “quase razoáveis,” sem chegar a sê-lo completamente. A vida não é ilógica em si, mas assim acaba parecendo ser para os lógicos, porque aparenta ter mais regularidade matemática do que, de fato, possui. Daí a importância de contrastar o pensamento com a realidade para buscar a verdade. Como podemos ver, este é um tema que freqüentemente aparece nas obras de Lewis. Em seu livro Ortodoxia, Chesterton trata de forma genial desse mesmo e tão importante assunto: O homem de hoje sempre se tem preocupado mais com a verdade do que com a coerência. [26]

A falta de consistência e coerência entre o que se professa e o que se vive é apontada por Lewis como um dos grandes obstáculos à criação literária da atualidade. O consumismo, o individualismo egocêntrico e a falta de consideração, tanto das limitações da natureza humana quanto do seu lado positivo, são obstáculos que precisam ser combatidos pelo crítico literário:

A maior arte do crítico é a de sair de si mesmo e deixar que a humanidade decida. Nosso dever é mostrar aos outros a obra que eles alegam admirar ou desprezar, como realmente é, descrevendo, quase que definindo seu caráter, para depois deixar que eles mesmos julguem (agora muito melhor informados). A certa altura, o crítico é até avisado para não adotar um rígido perfeccionismo. Ele deve manter sua idéia de excelência, de perfeição, mas, ao mesmo tempo, estar disposto e acessível ao segundo melhor que se oferece. Ele deve, em uma palavra, ter o caráter que [George] MacDonald atribuía a Deus, e Chesterton, seguindo-o, ao crítico; aquele que é “fácil de agradar, mas difícil de satisfazer.” [27]

D. Apre(e)nder imaginativo
Como dizíamos, parafraseando Chesterton, o melhor método para se apreender a realidade das coisas, que tão freqüentemente nos escapa numa abordagem direta, é o contraste (por exemplo, não podemos dizer o que é e no que implica a luz ou a energia, mas podemos constatar e determinar o que é o conceito e implicação da sua falta). Para o que não podemos captar pela razão, resta-nos a aceitação pela fé, ou a procura por uma via alternativa de aproximação, a via da imaginação. Na literatura não há melhor método de contraste do que os contos-de-fada, que consideram as coisas não diretamente como elas são ou se explicam, mas indiretamente, como elas não são, ou como foram vocacionadas a ser. Os contos-de-fada, longe de representar uma infantilização ou banalização da realidade, revelam-se como um poderoso recurso didático, capaz de ensinar verdades “éticas” muito mais adultas do que podemos supor. Por isso é que todo bom crítico e educador amadurecido sabe apreciá-los: “Nós que ainda apreciamos os contos-de-fada temos menos razões para querermos voltar às atitudes infantis. Conservamos o bom da infância, sem abrir mão de certos prazeres adultos.” [28]

Lewis mesmo confessa que o seu lado “imaginativo” era, de fato, o mais amadurecido:

O homem imaginativo em mim é mais velho, mais continuamente operativo e, neste sentido, mais fundamental do que qualquer um dos outros, o religioso e o crítico. Ele me fez, pela primeira vez, aventurar-me como poeta. Ele é que, numa réplica à poesia dos outros, tornou-me um crítico e, em defesa a esta réplica, tornou-me muitas vezes um crítico paradoxal. Foi ele que, após a minha conversão, levou-me a encarnar minha fé religiosa em formas simbólicas ou mitopoéticas de um Screwtape, até um tipo de ficção científica teológica. E é claro que foi ele que me levou, nos últimos anos, a escrever a série de contos narnianos, destinados a crianças; não porque eu estivesse preocupado com o que elas queriam ouvir, o que me comprometeria a fazer adaptações (o que felizmente não foi necessário…), mas porque o conto-de-fadas foi o melhor gênero literário que eu encontrei para expressar o que pretendia dizer. [29]

Por outro lado, quem é que hoje em dia ainda se dá ao luxo de ler “contos da carochinha” (que já adquiriram um forte sentido pejorativo)? A falta de um realismo equilibrado predominante deve-se em parte à falta de leitura ou à limitação à literatura insossa “dos fatos,” que nos leva à inversão de valores. Essa inversão, por sua vez, gera uma alienação e desarticulação da teoria e da prática, que, justificando-se cada qual a si mesma, perde o seu efetivo valor, recaindo alternadamente nos extremos do dogmatismo e do ativismo:

Lembre-se de que acreditar na virtude do “fazer pelo fazer” é um traço (…) do espírito moderno: o sentimento de preocupação pode não passar de inquietações ou oscilações auto-afirmativas da nossa auto-imagem. Como (George) MacDonald já dizia, “o sagrado pode ter um viés do profano.” E, ao nos empenharmos em cumprir deveres desnecessários, podemos estar nos tornando menos dispostos para cumprir com os nossos verdadeiros compromissos, cometendo, assim, um tipo de injustiça. Temos que dar uma chance não somente a Maria, mas também a Marta! [30]

Se observarmos as práticas de ensino nas escolas de hoje, veremos o império do exagero e da falta de moderação (o inchaço de currículos, o fazer pelo fazer, a falta de continuidade, organicidade, integração entre as práticas educacionais e o faz-de-conta). O realismo, a objetividade e a coerência no planejamento do ensino (na seleção de conteúdos, procedimentos metodológicos e atividades educacionais para cada fim proposto) são virtudes em franca extinção nos meios educacionais de hoje. Mesmo nas igrejas podemos observar práticas pedagógicas de pouco nexo com a filosofia cristã de vida. Nesse sentido, Lewis é duro, direto e enfático em sua exortação contra os chamados “educadores cristãos”:

Quando os educadores cristãos fazem questão de lembrar a seus irmãos a importância da constituição do lar cristão — e penso que a lembrança é perfeitamente pertinente — a primeira coisa a se fazer é acabar com o “faz-de-conta” em torno da vida do lar…: 1. Nenhuma organização ou modo de vida, não importa qual seja, tem uma tendência natural para o bem, e isso desde a queda do homem… 2. É preciso considerar com cuidado o conceito de “conversão” ou “consagração da vida em família,” que deve significar algo além da preservação do “amor,” no sentido de afeição natural. 3. Devemos reconhecer os perigos eminentes contidos na principal característica da vida doméstica, que é, no senso comum, colocada como sua atração principal: de ser o lugar onde “nos revelamos como realmente somos.” 4. Como as pessoas devem, então, comportar-se em casa? 5. Finalmente, podemos ensinar que, se o lar é para ser um instrumento da graça, deve ser também um lugar que mantém certas regras? Não pode haver vida em comum sem regras. A única alternativa à regra não é a liberdade, mas uma ilegítima (e muitas vezes inconsciente) tirania do membro mais egoísta sobre os outro. [31]

Sendo uma filosofia do sentido da vida, o cristianismo é a mais didática de todas as teologias, pois para fazermos frente aos desafios da vida e das mudanças históricas, o melhor meio é, partindo dos “fatos nus e crus,” abrir portas para o sentido mais profundo das coisas, para o seu verdadeiro destino e vocação.

Assim, o que se espera do educador cristão autêntico é que pare de queixar-se da falta de tempo e recursos e busque a coerência entre o que professa e as práticas concretas do seu cotidiano. Pois: “se nós realmente acreditamos naquilo em que dizemos crer — se realmente cremos que o nosso lar está em outro lugar e que esta vida é uma “peregrinação em sua busca,” por que não olhamos para frente, rumo à chegada?”[32]

Foi quando Lewis parou de correr atrás da sua concepção de felicidade e olhou para a realidade, que deu a chance que Deus esperava para surpreendê-lo com algo ainda maior do que era capaz de sonhar: o amor verdadeiro, do qual esteve fugindo todo o tempo.

Nesse sentido é que grandes psicanalistas, como Bruno Bettelheim, têm insistido em afirmar que os contos-de-fada, longe de ser uma mera forma de “escapismo” ou meio de fuga diante dos problemas da vida real, são altamente didáticos e até terapêuticos. [33] Aliás, a literatura, particularmente a imaginativa, tem este misterioso e aparentemente contraditório poder de captar a essência da experiência humana (permeada pela dor e o sofrimento) e transformá-la em sabedoria de vida. É isso que se pode constatar, ao menos, nas parábolas bíblicas. A educação pela imaginação, exemplificada nos contos-de-fada e nas parábolas, abriga um poderoso potencial pedagógico ainda pouco explorado ou mal aplicado nos meios educacionais.

Não se trata, entretanto, de uma receita mágica. Para se obter bons resultados com essa metodologia, principalmente no mundo atual, dominado pelo imediatismo e consumismo (é perfeitamente possível, por exemplo, que uma criança ouça um provérbio, ou uma parábola como a do O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa sem chegar a nenhuma conclusão mais profunda!), é preciso que se adote uma postura didática adequada. Nesse sentido é que a imagem de Cristo é tão ilustrativa. Nas palavras do tão simpático personagem, o castor, ele não fica exibindo toda a sua glória a todo instante, nem fica a explicar as coisas nos seus mínimos detalhes a todo o mundo. Ele escolhe muito bem os momentos e as palavras certas para dar o seu recado. Assim, tudo que está relacionado ao nome de Aslan permanece coberto de uma aura de mistério. Trata-se de um animal realmente feroz, um ser selvagem, caçador, que não é domesticável. Por outro lado, Aslan é, ao mesmo tempo “Bom, muito bom!” Essa imagem contém todos os elementos essenciais de Cristo na doutrina cristã. Não é para menos que Lewis diz, em uma de suas cartas, que O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa é a sua obra principal e mais amadurecida.

Nessa linha de pensamento, G. K. Chesterton diz que a postura certa é a que, com moderação, considera os dois lados, da razão e bom senso e da imaginação e criatividade, deixando Deus iluminar ambos com sua mente. Esta é a moral dos contos-de-fada (e é nessa filosofia que se fundamenta igualmente a “filosofia da educação” narniana), que não passam do “país ensolarado do senso comum,” onde não há “leis,” regras ou classificações. Estas, de fato, são generalizações totalmente anti-intelectuais, de tão raramente que ocorrem na realidade (se é que ocorrem), nas quais não é o homem que cria a ciência, elaborando juízos sobre a natureza, mas a ciência é que cria o homem, julgando a natureza a partir de um pressuposto sobrenatural. No mundo das fadas, as palavras de ordem são “charme”, “magia”, “encanto,” expressando o princípio da incerteza e do mistério, que nos torna mais humildes e gratos pela vida, trazendo-nos de volta ao chão da realidade, que é o da ignorância e do esquecimento até de nós mesmos:

Ame o Senhor nosso Deus, mas não tente conhecer-se a si mesmo. Somos todos vítimas da mesma calamidade intelectual; todos nós esquecemos nossos nomes; todos nós esquecemos o que realmente somos. Tudo o que chamamos de bom senso, racionalidade, praticidade e positivismo justifica-se pelo simples fato de que, devido a certos pontos mortos da nossa história de vida, esquecemos que esquecemos… Conforme explicava, os contos-de-fada fundaram em mim duas convicções: em primeiro lugar, este mundo é um lugar selvagem e chocante, que poderia ter sido muito diferente, mas que doravante é bastante prazeroso; em segundo lugar, antes desta selvageria e prazer, devemos ser modestos o suficiente para nos submeter, com simplicidade, aos limites do mistério. Sempre acreditei que o mundo envolvesse magia; hoje penso que é mais provável que envolva um mágico. [34]

Em síntese, o que Chesterton diz é: a babá que narra os contos-de-fadas é a guardiã da tradição e da própria democratização da sabedoria e do conhecimento. Nada há de mais plausível e confiável do que os contos-de-fadas, que nos fazem ver as coisas como realmente são: encantadoras demais para podermos racionalizá-las, restando-nos apenas admirá-las, glorificando o Criador.

E. Apre(e)nder pela literatura
O segredo da didática de Lewis, então, parece encontrar-se nessa tentativa de traduzir em literatura imaginativa e bem humorada, que também apela para a razão, o que aprendeu por experiência: que, embora possa vir a tornar-se um caminho enganoso, se perdermos a moderação, admirando a criatura em lugar do Criador (vaidade das vaidades), a literatura tem o potencial ainda pouco explorado pelos educadores de motivar o educando a buscar algo que vai além da letra morta, e nos conduzir de volta ao caminho rumo ao nosso lar esquecido.

A maior prova disso encontra-se na própria conversão de Lewis. Depois de cair no ceticismo ou anti-intelectualismo, após a descoberta de que a felicidade não se encontrava nas coisas que buscava, de repente acabou fazendo uma descoberta ainda maior: que a felicidade encontra-se para além dessas coisas, que não passam de sinais (daí vem ensinar) indicativos do caminho que leva a ela. Por esse exemplo de vida podemos notar que, precisamente por não ser “domesticável,” Deus se manifesta, sem pedir licença, a quem ele quiser e da forma que ele escolher.

F. Aprendendo a aprender
A metodologia proposta por Lewis na sua literatura, que parte sempre da experiência viva e real, traduzida e capturada pela linguagem imaginativa, visa abrir mais e mais caminhos ou vias de comunicação do evangelho ao ser humano. Essa metodologia das “portas abertas” tem o potencial de alcançar tanto cristãos desmotivados ou amortecidos pelo desânimo, quanto não cristãos, que esqueceram que Cristo é a única fonte da alegria verdadeira, capaz de preencher os vazios da natureza caída, reconciliando o homem com Deus e consigo mesmo. Evidentemente, essa felicidade, que podemos esperançosamente manter em mira através da literatura, nunca será totalmente realizada neste mundo, que, por isso mesmo, não passa de uma “terra das sombras” da verdadeira realidade que ainda está por vir.

Assim, podemos dizer, em síntese, que, de acordo com Lewis, a melhor maneira de o educador cristão preparar-se para o século XXI é “ver as coisas como são,” aplicando a literatura, método ainda pouco desenvolvido na educação cristã, como meio para abrir oportunidades à discussão de conceitos fundamentais, tais como realidade, razão, fé e imaginação. Dessa maneira, se poderá construir um projeto pedagógico capaz de nortear todos os educadores cristãos interessados em aprender a fazer frente aos desafios futuros, equipando-se com fé, razão, coragem e muita imaginação.

NOTAS:
1 – As Crônicas de Nárnia, lançadas pela Editora Martins Fontes na bienal do livro de 1997, é uma série de contos infantis que inclui: O Sobrinho do Mago, O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (que se encontra em desenho animado pela Reborn Vídeo), O Cavalo e seu Menino, Príncipe Caspian, A Viagem do Peregrino da Alvorada, A Cadeira de Prata e A Última Batalha.
2 – C. S. Lewis, Surprised by Joy (Nova York: Harcourt Brace, 1954), traduzido como Surpreendido pela Alegria (São Paulo: Editora Mundo Cristão, 1998).
3 – Da coleção de “Pensadores Clássicos” da Editora Mundo Cristão. Dessa coleção podemos citar ainda O Grande Abismo, além da coleção das Crônicas de Nárnia, hoje editadas pela Editora Martins Fontes. Outras obras de Lewis são Cristianismo Puro e Simples (ABU Editora) e O Peso da Glória (Vida Nova).
4 – Ainda que isso não seja bem verdade no Brasil, onde grande parte desses livros já se encontram esgotados, eles continuam bastante citados e aplicados, tanto nas Escolas Dominicais e reuniões diversas nas igrejas, quanto nos meios estudantis cristãos ou não.
5 – Colin Duriez, The J. R. R. Tolkien Handbook: A Comprehensive Guide to His Life, Writings, and World of Middle-Earth (Grand Rapids: Baker, 1992), 130.
6 – C. S. Lewis, Letters to Malcolm (Nova York: Harcourt Brace, 1963), 76.
7 – C. S. Lewis, Letters to an American Lady, ed. Clyde S. Kilby (Grand Rapids: Eerdmans, 1971), 55. A carta é de 26/4/56.
8 – Peter Kreeft, Buscar Sentido no Sofrimento (São Paulo: Edições Loyola, 1995), 100.
9 – Ibid., 61.
10 – Lewis, Letters to an American Lady, 79 (carta de 30/10/58).
11 – C. S. Lewis, The Allegory of Love (Oxford: Clarendon Press, 1936).
12 – C. S. Lewis, Studies in Medieval & Renaissance Literature (Cambridge: Cambridge University Press, 1996; 4a. edição), 44.
13 – Tomás de Aquino, Summa Contra Gentiles, em Os Pensadores, Vol VIII (São Paulo: Abril Cultural, 1973).
14 – Lewis, Studies in Medieval & Renaissance Literature, 59.
15 – Ibid., 72.
16 – Ibid., 82.
17 – Guilherme de Lorris (1200-40), poeta francês autor dos primeiros quatro mil versos de 22.000 do poema Le roman de la rose. A segunda parte foi escrita pelo poeta também francês Jean de Meun.
18 – C. S. Lewis, Cartas do Diabo a seu Aprendiz (Petrópolis: Vozes, 1996), 9.
19 – A Loyola manteve o nome original em inglês Screwtape. De fato, é difícil expressar a totalidade do significado desse nome em português, que lembra “verme”, “lombriga,” enfim, um parasita asqueroso que vai se enrolando em torno de si mesmo.
20 – Lewis, Cartas do Diabo a seu Aprendiz, 11.
21 – John R. Stott, Crer é também Pensar (São Paulo: ABU Editora, 1978), 7-8.
22 – Somente para citar um exemplo, devemos mencionar a excelente revista Didaquê, usada como material didático em escolas dominicais de diversas denominações, por todo o Brasil.
23 – Lewis, Cartas do Diabo a seu Aprendiz, 12
24 – Ibid., 12-13.
25 – Ibid., 13-14.
26 – Odero & Odero, Imagen del Hombre (Pamplona: EUNSA, 1993), 369.
27 – C. S. Lewis, An Experiment in Criticism (Cambridge: Cambridge University Press, 1961), 120.
28 – Lewis, Letters to an American Lady, 16 (carta de 22/6/53).
29 – Walter Hooper, C. S. Lewis, A Companion and Guide (São Francisco: Harper Collins, 1996).
30 – Ibid., 53 (carta de 19/3/56).
31 – C. S. Lewis, God in the Dock: Essays on Theology and Ethics, ed. W. Hooper (Grand Rapids: Eerdmans, 1970), 284ss.
32 – Lewis, Letters to an American Lady, 84 (carta de 7/6/59).
33 – Os relatos completos das experiências impressionantes de Bruno Bettelheim com o tratamento de crianças deficientes mentais a partir dos contos-de-fadas pode ser lido na sua obra: A Psicanálise dos Contos de Fadas (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980). Ele diz: “É uma característica dos contos de fadas colocar um dilema existencial de forma breve e categórica. Isto permite à criança aprender o problema em sua forma mais essencial, onde uma trama mais complexa confundiria o assunto para ela. O conto-de-fadas simplifica todas as situações” (p. 15).
34 – G. K. Chesterton, “Orthodoxy,” texto eletrônico disponível na internet no endereço: http://www.dur.ac.uk/~dcs0mpw/gkc/books/ortho14.txt
Fonte: Revista Fides Reformata
* Gabriele Greggersen, fez mestrado e doutorado (tese: “A Antropologia Filosófica de ‘O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa’ e a Pedagogia de C. S.Lewis”) na área de História e Filosofia da Educação na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Foi  professora de Didática e Metodologia no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação Andrew Jumper, junto à Universidade Presbiteriana Mackenzie entre outras faculdades, além de dar palestras e prestar consultoria pedagógica por todo o Brasil.

Texto retirado de:  www.cslewis.com.br

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