Homofobia Basta!

São Sebastião é escolhido como Ícone GAY!!!

Posted on: 9 de junho de 2011

São Sebastião: protetor dos gays e Santuário Homossexual do Brasil

São Sebastião, de Nicolas Régnier. 1620.

VIDA, MARTÍRIO E MORTE

São Sebastião (França, 256 – 286 d.C.), originário de Narbonne e cidadão de Milão, foi um mártir e santo cristão, morto durante a perseguição levada a cabo pelo imperador romano Diocleciano. O seu nome deriva do grego sebastós, que significa “divino, venerável”.

De acordo com Atos apócrifos, atribuídos a Santo Ambrósio de Milão, Sebastião era um soldado que teria se alistado no exército romano por volta de 283 d.C., com a única intenção de afirmar o coração dos cristãos, enfraquecido diante das torturas. Era querido dos imperadores Diocleciano e Maximiliano, que o queriam sempre próximo, ignorando tratar-se de um cristão e, por isso, o designaram capitão da sua guarda pessoal – a Guarda Pretoriana. Por volta de 286, a sua conduta branda para com os prisioneiros cristãos levou o imperador a julgá-lo sumariamente como traidor, tendo ordenado a sua execução por meio de flechas (que se tornaram símbolo constante na sua iconografia). Foi dado como morto e atirado no rio, porém, Sebastião não havia falecido. Encontrado e socorrido por Santa Irene, foi depois levado novamente diante de Diocleciano, que ordenou então que lhe fosse espancado até a morte. Mesmo assim, ele não teria morrido.

Acabou sendo morto transpassado por uma lança.

Capela de São Sebastião na Catedral de Amiens (França),
decorada por Nicolas Blasset em 1634.

Existem inconsistências no relato da vida de São Sebastião: Historicamente o edito que autorizava a perseguição sistemática dos cristãos pelo Império foi publicado apenas em 303 d.C., pelo que a data tradicional do martírio de São Sebastião parece um pouco precoce. O simbolismo na História, como no caso de Jonas, Noé e também de São Sebastião, é vista, pelas lideranças cristãs atuais, como alegoria, mito, fragmento de estórias, uma construção histórica que atravessou séculos.

O bárbaro método de execução de São Sebastião fez dele um tema recorrente na arte medieval – surgindo geralmente representado como um jovem amarrado a uma estaca e perfurado por várias setas (flechas); de resto, três setas, uma em pala e duas em aspa, atadas por um fio, constituem o seu símbolo heráldico.

Tal como São Jorge, Sebastião foi um dos soldados romanos mártires e santos, cujo culto nasceu no século IV e que atingiu o seu auge na Baixa Idade Média, designadamente nos séculos XIV e XV, tanto na Igreja Católica como na Igreja Ortodoxa. Embora os seus martírios possam provocar algum ceticismo junto dos estudiosos atuais, certos detalhes são consistentes com atitudes de mártires cristãos seus contemporâneos.

Estátua de São Sebastião – Igreja de Fresnay em Retz (França)

Em seu romance Morte em Veneza, Thomas Mann (1875 – 1955) elogia a figura de Sebastião como o símbolo supremo da beleza apolínea, ou seja, a arte de formas diferenciadas, a beleza medida pela disciplina, proporção e distinções luminosas. Em 1976, o diretor britânico Derek Jarman (1942 – 1994) fez um filme, Sebastiane, que causou polêmica em seu tratamento do mártir como um ícone homossexual. No entanto, como vários críticos têm notado, este tem sido um subtexto da imagem desde o Renascimento.

Giovanni Bellini – São Domingos e São Sebastião. 1487.

PROTETOR DOS GAYS

No dia 20 de janeiro de 2000, festa do mártir São Sebastião, o Grupo Gay da Bahia (GGB) divulgou documento proclamando São Sebastião como o patrono dos gays e elegendo o Mosteiro de São Sebastião dos Beneditinos da Bahia como o Santuário Homossexual do Brasil.

Segundo Luiz Mott, professor de Antropologia na Universidade Federal da Bahia, desde a Idade Média que os homossexuais veneram São Sebastião como protetor da categoria. As gravuras e imagens de São Sebastião sempre o mostram seminu e com pose e expressão bastante efeminado, o que reforçou ao longo dos séculos a identificação deste santo mártir como ícone gay. Famosos pintores gays renascentistas, como Sodoma e Boticelli, pintaram São Sebastião reforçando ainda mais sua nudez e efeminação. Oscar Wilde e Garcia Lorca, ambos homossexuais, eram devotos e chegaram a fazer esboço da pintura deste santo.

José-Manuel Benito Álvarez – Martírio de São Sebastião,
altar do mosteiro de São Benito de Valladolid,
 agora no Museu Nacional de Escultura de Valladolid, Espanha.
Lionello Spada, São Sebastião,
Palazzo Altieri (Roma, Itália). Óleo sobre tela.

Ainda segundo Mott, a escolha do Mosteiro de S. Bento da Bahia como Santuário Homossexual do Brasil se justifica por duas razões: por ter sido a primeira igreja consagrada no Brasil Colonial em homenagem a este santo mártir e pelo fato do Mosteiro da Bahia ter sempre abrigado, desde sua fundação na segunda metade do Século XVI até o século XX, a presença de importantes homossexuais. Mott tem cópia de diversos documentos e processos da Torre do Tombo de Lisboa onde são citados diversos monges “sodomitas” (gays) perseguidos pela Inquisição. Para a atualidade, o GGB dispõe em seu arquivo diversas reportagens publicadas na imprensa local e nacional que mostram o envolvimento dos beneditinos da Bahia e de Olinda com práticas homoeróticas.

A intenção do Grupo Gay da Bahia, ao associar a homossexualidade à igreja Católica, é chamar a atenção das autoridades religiosas de que há muitos homossexuais católicos que continuam fiéis à religião e que desejam que a Igreja os acolha como filhos e irmãos alegando que o Cristo nunca condenou os “sodomitas”. Os gays e lésbicas católicos baianos querem que também em Salvador a Arquidiocese nomeie um padre para se ocupar da Pastoral para Homossexuais.

Martírio de São Sebastião, de Gustave Moreau. 1869.
Pietro Perugino – São Sebastião e fragmentos de figuras
de São Roque e São Pedro. 1478.
PROCLAMAÇÃO DE SÃO SEBASTIÃO PATRONO DOS GAYS
E A IGREJA DE SÃO SEBASTIÃO DOS BENEDITINOS DA BAHIA,
SANTUÁRIO HOMOSSEXUAL DO BRASIL
==20/1/2000==

NÓS, GAYS, LÉSBICAS, TRAVESTIS E TRANSEXUAIS presentes aqui, na Igreja de São Sebastião do Mosteiro dos Beneditinos de Salvador, proclamamos hoje, 20 de janeiro de 2000, esta Igreja como o Santuário Homossexual do Brasil, e São Sebastião, padroeiro e patrono dos gays, lésbicas, travestis e transexuais do Brasil.

Seguindo uma tradição do povo gay que perdura desde primeiro milênio da Era Cristã, e que fez de São Sebastião o principal ícone e modelo da homossexualidade, proclamamos solenemente, neste primeiro aniversário de São Sebastião no terceiro milênio, nossa fé de que nosso santo padroeiro vai nos dar força para vencermos os inimigos e o mal que ainda ameaçam nossa vida e a felicidade, e que a partir deste novo milênio, a comunidade homossexual do Brasil passará a ser respeitada com os mesmos direitos dos demais cidadãos.

São Sebastião. Itália, escola florentina,
primeira metade do século XVI.

Pedimos a São Sebastião que seja nosso advogado para a obtenção de três graças especiais:

1] O fim da violência anti-homossexual: as mesmas dores que o mártir São Sebastião sentiu ao ter seu corpo vazado pelas flechas, estas mesmas dores continuam a machucar ainda hoje os homossexuais: a cada três dias um gay, travesti ou lésbica é barbaramente assassinado, vítima da homofobia, mais de 170 homicídios cometidos somente em 1999;

2] Que a Igreja Católica e todas as religiões peçam perdão aos homossexuais pela perseguição, fogueira, inquisição e intolerância como ainda hoje tratam os homossexuais; que aceitem e abençoem o amor homossexual pois “onde há amor, Deus aí está”; que instaurem pastoral específica para os homossexuais, pois também somos filhos de Deus e Templos do Espírito Santo;

3] Que São Sebastião, tradicional patrono contra a peste, inspire os cientistas e pesquisadores a encontrar rapidamente a cura da Aids, afastando para sempre o fantasma desta epidemia de nossa comunidade, ajudando aos soropositivos e doentes de Aids a vencer a dor e a ter vida longa e saudável.

São Sebastião (c. 1660). Mattia Preti,
Museo Nazionale di Capodimonte, Nápoles.

Ao consagrar esta igreja como Santuário Homossexual do Brasil, conclamamos a todos os gays, lésbicas e travestis do Brasil e do Mundo que não deixem morrer esta semente de esperança que hoje aqui plantamos, e que nos próximos anos venham celebrar nosso orgulho e esperança aos pés de nosso patrono, o glorioso São Sebastião, padroeiro dos homossexuais.

Fonte: GGB ( www.ggb.org.br )

São Sebastião (Roma)
São Sebastião, de Claude Dejoux. 1779.

ÍCONE GAY

Adotado como ícone pop-gay desde Oscar Wilde, São Sebastião é mundialmente associado às questões GLBT.

São Sebastião, de Francesco di Gentile da Fabriano
(filho e aluno de Gentile da Fabriano; 1460-1500).
Museu de Belas-Artes de Lille.

Isso ocorreu porque no século XIX muitos artistas homossexuais buscaram no santo uma identificação para sua condição marginal. Baseavam-se tanto nas representações andróginas do Renascimento, quando na história do santo: um mártir que assumiu uma identidade polêmica (a de cristão), mesmo que às custas de sacrifício, sofrimento e morte.

Wilde, condenado a dois anos de prisão, em 1895, “por práticas contrárias à natureza”, converteu-se ao catolicismo e passou a adotar o pseudônimo de Sebastian.

São Sebastião, de Hendrick Brugghen.
 São Sebastião, de Pierre et Gilles

No século XX, outros artistas fizeram uso da imagem ou da história de São Sebastião em associação à homossexualidade, entre eles Yukio Mishima, Jean Cocteau, Federico García Lorca e Thomas Mann. Em seu discurso de agradecimento ao Prêmio Nobel de Literatura, em 1929, Thomas Mann afirmou que, apesar de protestante, tinha um santo favorito: “o jovem no sacrifício que, atravessado por flechas, sorri em sua agonia”.

São Sebastião, pintado por El Greco para a
Catedral de Palencia (Espanha). 1577-1578.
São Sebastião, uma das últimas obras de Ticiano (ca. 1570),
atualmente no Museu Hermitage.

Na década de 1980, o surgimento da Aids reforçou os laços entre o santo e a comunidade gay, já que ele, desde a época medieval, foi considerado um protetor contra doenças contagiosas e epidemias. Na década anterior, o cineasta inglês Derek Jarman fez um polêmico filme sobre o santo, Sebastiane.

Ticiano – São Sebastião. 1520-1522.

SEBASTIANE

Pôster

Sebastiane é um polêmico filme de 1976 escrito e dirigido por Derek Jarman e Paul Humfress. Ele retrata os acontecimentos da vida de São Sebastião, incluindo o seu icônico martírio por setas. A maior parte da controvérsia em torno do filme deriva do homoerotismo retratado entre os soldados. É significativo por ser o primeiro filme a ser gravado inteiramente com precisão em latim, que foi tão longe como a tradução de alguns diálogos em latim vulgar.

Cena do filme
Cena do filme

O filme é ambientado em um posto militar romano. O ambiente intensamente homossocial permite que os homens se envolvam uns com os outros física e sexualmente. O filme é ambientado na época do imperador Diocleciano, quase dois milênios antes de o Ocidente inventar a palavra “homossexual” (uma categoria simplesmente inexistente no mundo de Sebastiane), pois é altamente enganoso sugerir que os soldados romanos tivessem desejos homoeróticos como resultado da ausência de mulheres. Os homens, naturalmente, desenvolvem livre e apaixonadamente relacionamentos românticos entre si. É esta intensidade, e pelo afastamento do posto avançado, que gera o ciúme, a obsessão e o resultado quase inevitavelmente violento quando um centurião desenvolve um desejo implacável por Sebastião, que rejeita seus avanços. Uma situação muito semelhante foi registrada no filme de Claire Denis, Beau Travail, de 1999.

Cena do filme

Para ser exibido na televisão britânica, e na verdade para ganhar uma classificação da BBFC (British Board of Film Classification, responsável pela classificação de filmes nacionais no Reino Unido), os censores necessitaram cortar uma cena de amor em que ocorre uma ereção. A ereção seria inaceitável para a BBFC. Ao apresentar o filme à direção, Jarman discretamente arranjou para que a seleção pudesse ser mostrada numa proporção incorreta, o que efetivamente mascarava a parte inferior da imagem, e resultou na montagem em que a cena de amor não fosse removida. Depois de receber a classificação, o filme foi apresentado publicamente na proporção correta. Jarman tinha efetivamente enganado os censores, como ele descreve em sua autobiografia Dancing Ledge.

Cena do filme
Cena do filme

Um documentário chamado Sex and the Censors mostrado na década de 1980 destacou um ocorrido com Sebastiane. Por causa de um erro, a cena da ereção foi exibida por trás de Jarman, enquanto ele estava sendo entrevistado. Esta mesma cena foi repetida mais tarde durante temporada de Banned no Channel 4, no programa X-Rated: A TV Que Eles Tentaram Proibir, onde foi precedida de uma advertência sobre o conteúdo adulto.

Pôster
Fonte:HomoTheosis 

1 Response to "São Sebastião é escolhido como Ícone GAY!!!"

muito legal este apanhado sobre são sebastião, mas uma ressalva: beau travail de denis não é intencionalmnte um filme sobre homoafetividade/erotismo, e como vários filmes dela, as elipses deixam livre para o público enteder o que está acontecendo, mas em momento algum fica claro que há uma tensão homoafetiva entre as duas personagens, na verdade a única coisa certa é que há ali um conflito de egos e de agraciação, e somente de uma das partes, enquanto a outra não compete por nada.

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Ativista dos Direitos Humanos (Principalmente LGBTs ); Teólogo;Homeopata; Psicanalista, especialista em Sexualidade Humana, Filosofia, Sociologia;Blogueiro.

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