Homofobia Basta!

Não sou Gay, sou Two Spirit

Posted on: 9 de junho de 2011

Da diferença entre gay e Two-spirit

Olá, meus amigos.

Venho aqui lhes apresentar um belo artigo escrito por um camarada conhecido na Internet comoRevolucionário, que vez por outra nos brinda com textos de uma profundidade ímpar, e que, invariavelmente, nos levam a refletir sobre a vida, sobre o amor, sobre o ser e sobre nós mesmos.

Ao final do artigo, há o endereço do seu blog. Acesse, conheça e opine, aqui e lá.

Grande abraço!
*     *     *
Da diferença entre gay e Two-spirit

Este artigo trata das formas que as diferentes sociedades ao redor do mundo vêem os seres diversos do homem e da mulher comuns e da homo-afetivo-sexualidade.

Como todos sabemos, o conceito de gay ou homossexual tem base na civilização ocidental, judaico-cristã que divide o mundo em homens e mulheres. Modernamente incorporaram-se à nossa civilização identidades sociais baseadas no objeto pelo qual você sente desejo sexual. Até então inexistiam tais “identidades” sociais legitimadas e reconhecidas. Pederasta, viado, sodomita, sapatão etc eram quase xingamentos, mas representavam uma característica do ser, tal qual “gordo” ou “preto” e não um ser específico (claro, com muitas considerações a se fazer sobre isso).

Um casal two-spirit moderno:
Brian Rainforth, à esquerda, e Raven E. Heavy Runner.
Montana, EUA.

Dessa forma, por mais que um homem seja afeminado ou uma mulher masculinizada, a base da sua alteridade e da sua identidade social está no seu desejo sexual e não nas características masculinas e femininas que eles manifestam. Por mais que um homem seja masculinizado, se ele tiver desejo por outro homem, ele já é jogado em outro grupo.

Cabe lembrar que tal postura mental não é universal ; nos países árabes esta noção de identidade pelo desejo sexual inexiste (ao menos da mesma forma como a conhecemos) e há uma identidade diferenciada apenas para os afeminados e os sexualmente passivos, que por se igualarem à mulher, ganham um status inferiorizado. Assim, o “homossexual masculino e ativo” é simplesmente um homem como outro qualquer.

Se a identidade de gay nos parece tão natural, ela não é universal. Para entendermos melhor as diferentes classificações acerca deste fenômeno, nada melhor do que voltar às sociedades indígenas norte-americanas.

Quando os europeus estiveram em contato com estes povos perceberam que havia índios-mulheres e mulheres-homens indígenas que desempenhavam alguns papéis específicos. 

Infelizmente o preconceito religioso da época relegou estas pessoas a um limbo no registro histórico, onde esses seres, para não chocar a mentalidade da época, eram frequentemente registrados como mulheres ou simplesmente como índios, pois mencionar travestis poderia causar escândalo.

Two-spirits

Em muitas tribos norte-americanas estes índios eram tidos como possuidores de duas almas, uma masculina e outra feminina e pela sua natureza singular a eles eram dados papéis específicos em alguns rituais. Isso é assim até hoje em algumas tribos, particularmente entre os navajos. Para maiores informações busquem o livro “Cartas do Caminho Sagrado”.

A eles eram dadas tarefas especiais, pois como podiam ver o mundo com olhos tanto de homem quanto de mulher, podiam prever o futuro, eram mais aptos às atividades xamânicas, responsáveis por cuidar das crianças e repassá-lhes os mitos etc. Cabe nos perguntar se isso faz parte de uma “natureza” destes índios ou se essas funções eram mais sociais do que espirituais, pois uma vez que não se reproduziam, tinham mais tempo para se dedicar a atividades outras que não a caça ou a cuidar dos filhos.

Não obstante, os historiadores se esbarram com uma questão que não está muito clara nos registros: Até que ponto a identidade destes índios de duas almas estavam relacionados à homossexualidade? Será também que havia alguma diferença entre um gay mais ou menos afeminado e uma travesti?

Os registros não deixam claro, mas sabe-se que muitos índios de duas almas viviam maritalmente tanto com o sexo oposto quanto com o sexo semelhante. O que, do ponto de vista da nossa experiência atual, é normal, pois sabemos que a sexualidade humana é plural e diversa.Contudo, será que um índio homem masculinizado que se relacionava com alguém do sexo semelhante era automaticamente categorizado como tendo “duas almas”? . 

Até agora parece-nos que não. Isso acontece pelo simples fato de que  parece que não havia uma identidade social para com quem você faz sexo, mas sim pela qualidade dos princípios masculinos e femininos que você manifestava, independentemente da prática sexual.

Algumas tribos indígenas tinham até nove gêneros, como os antigos navajo. Esta postura talvez explicaria a pergunta se eles faziam alguma diferença entre os diferentes graus de afeminamento e masculinização que observamos no mundo LGBT. Também é provável que embora tais identidades não sejam “orientações sexuais”, algumas tribos categorizassem por nomes aqueles que podiam se reproduzir e aqueles que não iriam se reproduzir.

Two-spirits: casal navajo do mesmo sexo

Conforme os europeus foram destruindo essas sociedades essas tradições e conhecimentos foram se perdendo e a heteronormatividade imposta pela escola, pela televisão, jornais, cristianização etc foi ganhando cada vez mais força. Hoje conhece-se registros de tribos declaradamente homofóbicas, mas é muito difícil saber se isto era original da tribo, se isso é influência dos europeus, se isso foi alterado nos registros históricos ou se foi uma má interpretação dos europeus “historiadores”.

Sabe-se inclusive que algumas dessas tribos tinham cerimônias de “união” especiais para casais de sexos semelhantes. Nem precisa dizer que tudo isso se perdeu, sobretudo porque o governo norte-americano até recentemente tinha uma lei que tornava crime a propagação da crenças “pagãs” dos índios. MUITA COISA SE PERDEU. Lamentável.

Na década de 90 LGBTs indígenas norte-americanos, que sofriam grande preconceito em suas tribos redescobriram essa qualidade dos índios de duas almas associados aos seres LGBT, muito embora tal prática ainda continue em algumas tribos. E a partir desta década eles cunharam o conceito two-spirit, unificando diversos conceitos indígenas diferentes. Entre os navajo eles eram chamados de índios Nadleeh, outras tribos os chamavam de índios Ma-ho. 

Moderno casal two-spirits

Cabe lembrar que os espanhóis chamavam esses índios duais de berdaches, mas este não é um termo nativo e origina de um termo árabe para prostituto.  Há uma região no México que a tolerância aos LGBTs indígenas permanece até hoje como parte da cultura local e chama-se Oaxaca. Quem quiser mais informações, procurem o filme Muxes.

Atualmente muitos LGBTs com origem indígena norte-americana não são gays e nem lésbicas, mas sim two-spirits, o que é muito bom, pois representa um novo entendimento acerca de si mesmo e um descolamento deles da cultura Ocidental que tanto destruiu suas vidas. Esta não é uma identidade de prática sexual, mas um conceito de gênero “espiritual. Para quem entende dos mistérios esotéricos dos conhecimentos nativos sabe-se que two-spirit é um princípio da natureza, mas sobre isso não posso falar, pois maiores detalhes podem ser obtidos por meio de meditação individual.

Independentemente da validade dos conceitos ocidentais ou indígenas, podemos tirar algumas conclusões importantes:

– A noção de identidade pela prática sexual de uma pessoa não é universal e tampouco imutável. Parece que muitos índios vivam maritalmente com sexo semelhantes sem que isso designasse uma identidade com índios de duas almas. Em nossa sociedade isso é muito visível quando olhamos a brutal diferença entre gays e HSH* . Os primeiros sabem que são diferentes em algum nível dos homens comuns, mas os HSH, embora façam o mesmo sexo que os gays, são completamente indiferentes a estas identidades.

– A possibilidade de identidades baseadas nos princípios masculinos e femininos que gays, lésbicas e transgêneros manifestam de maneira dual. Tal conceito existe em boa parte do mundo dito primitivo e em muitas sociedades “pagãs”. Para maiores informações procurem a entrevista na internet com Malidoma Some, um dos responsáveis pelos mistérios esotéricos da tribo dos Dogons na África. Em boa parte dessas culturas a existência de pessoas “duais” significava possuir poderes diferentes da maioria.

Para o pensamento moderno isto soa como fantasia. Portanto, será que é sábio “importar” essas culturas? – indago-me.

– Também podemos nos perguntar: será que são tão necessárias assim identidades para definirmos com quem a gente ta fudendo? Poderia haver outros princípios para a identificação? Não obstante, isso esbarra na recusa de LGBTs de se identificarem como sendo seres duais e também na recusa do pensamento materialista de admitir qualquer dimensão espiritualizada para esta condição, tal como acontecia nessas sociedades indígenas.

Ainda há muitas perguntas sobre as identidades dos índios two-spirits, mas sabe-se que eles eram predominantemente os modernos LGBTs. Assim como, também há muitos limbos no entendimento do que é ser gay. Ninguém até hoje sabe se gay é um tipo de homem, é uma característica, se eles devem ou não ser chamados assim etc.

Capa do livro Two Spirits: A Story of Life With the Navajo,
de Walter L. Willias e Toby Johnson.

Enfim, o conhecimento humano ao longo das inúmeras sociedades parece ser dinâmico e se amplia com os novos entendimentos. Independentemente de como os índios-norte americanos “eram” ou “são” é importante entendermos essas visões do passado para compreendermos nossa própria natureza atual e revermos nossas visões sobre temas que nos parecem tão naturais, mas que não o são.

Amor e Paz
Revolucionário.
Blog: http://evolucaolgbt.blogspot.com/

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O Autor

Ativista dos Direitos Humanos (Principalmente LGBTs ); Teólogo;Homeopata; Psicanalista, especialista em Sexualidade Humana, Filosofia, Sociologia;Blogueiro.

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